1 INTRODUÇÃO
A arte de construir um problema é muito importante: inventamos um problema,
uma posição de problema, antes de encontrar uma solução.
Gilles Deleuze A emergência das redes cibernéticas interativas
de comunicação e informação é um acontecimento
relativamente recente na história da humanidade. Algo em torno de duas
décadas, tomando a Internet como referência. Trata-se, em verdade,
de um movimento tecno-social de grandes dimensões, constituído
hoje por centenas de milhões de pessoas interconectadas no mundo todo.
Esta interação humano-maquínica está atravessando
importantes domínios da existência social e individual, produzindo
diferentes formas de ação e pensamento, sob certos aspectos revolucionárias,
mas, em todo caso, certamente, imprevisíveis e de importância crescente.
O campo problemático o qual, então, a presente pesquisa procura
investigar é o da produção da subjetividade contemporânea
e suas mutações, atuais e virtuais, a partir da “emergência
do ciberespaço”, em especial de sua dimensão comunicativa
Web. Este teleespaço de interação comunicativa atravessa
o campo social em diferentes direções do mundo da cultura, mas
também da economia e do trabalho, da política e da ética,
da ciência e do conhecimento. As implicações deste novo
“espaço-informação” são de tal grandeza
e complexidade que, sob certos aspectos, parecem extraordinárias. Em
uma medida, se for considerado o conjunto dessas afetações humano-maquínicas
emergentes, é a própria paidéia que é colocada em
questão. Este ciberespaço agora faz parte do mundo contemporâneo.
É quase como o ar que se respira; sua presença é cada vez
mais unívoca e
imprescindível para a vida em sociedade; nas atividades profissionais,
nos escritórios e laboratórios de pesquisa, nas instituições,
empresas, bancos, universidades; nas comunicações pessoais, nas
programações culturais, no universo das “diversões
eletrônicas”, nas compras on line e movimentações
bancárias, apenas para dar alguns exemplos. Nesse universo, os agenciamentos
de enunciação estão implicados em uma produtividade ativa
e criativa e em uma interatividade crescente de comunicação. Em
maior ou menor escala, trata-se de uma comunicação autocriativa
do tipo “todos com todos”, significando que os participantes da
grande teia digital são agora virtualmente “agenciamentos coletivos
de enunciação” de criação e resistência
comunicativo reais. Diferentemente das “metanarrativas” precedentes
encarnadas nos mass media eletrônicos como o rádio, o cinema e
a televisão e impressos, como o livro e o jornal, o que estes novos agenciamentos
anunciam são narrativas polifônicas encarnadas. Uma espécie
de autonarrativa generalizada. Os agenciamentos humano-maquínicos cibernéticos
formatam, fomentam, virtualizam subjetividades políticas, literárias,
filosóficas, comunicativas, inauditas no contexto da cultura industrial
precedente e seu modo de produção específico, serial de
massas, e da hegemonia ‘tecnopedagógica’ de grandes meios
de comunicação que predominaram no cenário político
e cultural do recente século passado. Não há, evidentemente,
um único modo de as subjetividades contemporâneas agirem e reagirem,
produzirem-se e constituirem-se diante da nova mídia. De um lado, uma
geração que, diante do computador, “totem e tabu”,
se coloca na defensiva – mesmo quando é ofensiva – negando-o
em todas as suas letras. Existe mesmo, no extremo desta visão, um movimento
deliberado para “literalmente destruir” os tais “monstros
diabólicos”. Em todo caso, no interior deste “campo defensivo”,
a maioria simplesmente se sente intimidada e continua com seus velhos e bons
métodos de agir, pensar, educar e interagir. Trata-se de uma geração
que, tendo vivido a maior parte de suas vidas sem este atravessamento cibernético,
pode, de certa forma, continuar sua vida “independentemente dos computadores
e da Web”. O telefone, a televisão, o rádio, o cinema, as
cartas, os livros constituem já, por
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si mesmos, um mundo rico de interações comunicativas para o espírito.
E, apesar da Web e junto com ela, não vão perder em nada seu encanto
específico. De outro lado, porém, uma geração, sobretudo
a que agora está nascendo e crescendo, que já está, desde
o início de seus dias, mergulhada nos ambientes digitais eletrônicos.
Para essa geração, um computador conectado à Web faz parte
do seu design educativo e doméstico; ele é, como o rádio
ou a televisão, uma interface eletrônica a mais em seu meio ambiente.
Entre essas duas, uma outra, como aquela que deve ser capaz de semear o campo,
uma geração de passagem, tentando, de modo nem sempre satisfatório,
entender-se e inventar-se neste novo ambiente cognitivo. A tentativa de uma
apreensão total e conclusiva dessa relação seria inglória
e não está definitivamente no horizonte deste trabalho. O que
interessa, sobretudo, é inventariar e problematizar os processos de subjetivação
atravessados pelo acontecimento cibernético, sem pretensão de
esgotá-los em si ou em alguma totalidade teórica ou programática.
Antes, situar probabilidades teóricas, tendências virtuais, pragmáticas
ecosóficas possíveis. Trata-se, então, sobretudo, de abrir
pistas de investigação do acontecimento, antes de carimbar, enquadrar
em formas muito delimitadas. Tenta-se captar antes o devir o qual em si é
irrecuperável por uma teoria qualquer; pensar as implicações,
não apenas decorrentes da emergência das tecnologias da inteligência,
mas também as recorrências, as desestabilizações
e os deslocamentos do social instituído e dos diferentes modos como se
processa as interações humano-maquínicas aí; perceber
as potencialidades e as “dobras” éticas, estéticas
e políticas abertas por esta emergência, quer dizer, como tais
tecnologias estão sendo e podem ser apropriadas pelas subjetividades
contemporâneas. Problematizar, no entanto, as “subjetividades Web”
é pensar um campo extremamente vasto e de grande complexidade, onde se
cruza uma diversidade infinita de personagens reais e conceituais. Além
disso, o esforço
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de compreensão precisa ser capaz de circunscrever a análise ao
caráter autoconstitutivo permanente e aberto da rede mundial. Uma das
peculiaridades da análise das questões suscitadas pela emergência
das novas tecnologias de comunicação é que, precisamente,
sua auto-instituição social está “em construção”,
porque faz parte do seu próprio modo de ser o caráter autopoiético
processual heterogenético. Isso confere à análise uma recorrência
permanente às tendências e sintomas, muitas vezes, distantes do
grande público do mundo letrado contemporâneo; processos muitas
vezes minúsculos, parciais, limitados que podem ou não desembocar
em movimentos generalizados da subjetividade e do social contemporâneo.
Os efeitos bolas de neve destes processos e movimentos sociais minúsculos,
como diria Gabriel Tarde, são os verdadeiros agentes formadores do social.
Em todo caso, interessa aqui, principalmente, cartografar e desenhar os devires
das subjetividades contemporâneas em direção a práticas
sociais ecosóficas inovadoras. Trata-se, portanto, de uma pesquisa-invenção.
Por essa razão, mais que nunca, se reconhece o recorte necessariamente
parcial da análise. Por mais extensa que ela possa ser, no contexto do
pensamento eletrônico, ela nunca poderá deixar de ser um recorte
transversal. Desse modo, a fim de problematizar as questões suscitadas
neste contexto problemático, apresenta-se, a seguir, um ensaio teórico
dividido em duas partes, composto, o primeiro, de um conjunto de três
seções e o segundo, de seis seções; e uma conclusão
como encerramento. Na primeira parte, visa-se ao desenvolvimento de uma elaboração
mais propriamente conceitual de contextualização, cercamento e
fundamentação das idéias elaboradas a partir da segunda
parte. Assim, inicialmente procura-se apresentar o “lugar”, bem
como a “sensação do presente” a partir dos quais se
está falando. Em seguida, esboça-se a idéia da Web como
um novo espaço antropológico. Por fim, procura-se elucidar a idéia
de subjetividade e suas relações com a tecnologia.
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Dessa maneira, na primeira seção da primeira parte, intitulada
Heterogênese conceitual, procura-se, em grandes linhas, elaborar a “situação
epistêmica” teórica e prática do lógos contemporâneo,
a partir da problematização, primeiramente, do contexto epistemológico,
situado em um referencial crítico-dialético e trágico-dionisíaco,
na era do “fim das certezas” e, em seguida, do contexto ético-estético-político,
situado em coordenadas e paradigmas ecosóficos. Na seção
seguinte, A admirável Web humana, procura-se elucidar o nascimento e
o lugar da Web na sociedade contemporânea, bem como suas características
essenciais; e, na seção Uma subjetividade polifônica, elabora-se,
primeiramente, o conceito de subjetividade e suas mutações, destacando,
em seguida, a discussão em torno do problema do determinismo tecnológico.
Na segunda parte, por sua vez, procura-se analisar um conjunto de importantes
vetores de subjetivação contemporâneos. Elaboram-se esses
vetores e seus deslocamentos fundamentais nos processos de comunicação,
de relações cotidianas, de produção cultural, do
trabalho humano, da dimensão política e, por fim, do próprio
do pensamento. Desse modo, na primeira seção da segunda parte,
A trofolaxe digital, discute-se o papel fundamental da linguagem e da comunicação
na psique e no mundo humano e, então, debatem-se as diferentes interfaces
de comunicação constituídas historicamente, atentando,
por fim, para a grande mutação operada no vetor de subjetivação
comunicativo. Na seção seguinte, O cotidiano on line, problematiza-se
a arquitetura do novo espaço cotidiano virtual e das vivências
e interações humanas, constituídas no interior deste espaço.
Na seção, A Alexandria digital, discutem-se a cultura na idade
do computador e a emergência de um novo modo de produção,
registro, consumo, distribuição e transação dos
bens culturais; argumenta-se, ainda, em torno do papel estratégico político
e ecológico desta hipercultura digital. Na seção, Adeus
ao proletariado industrial, partindo-se do papel central do trabalho na existência
humana, reflete-se sobre as transformações no modo de produção
e no conceito de trabalho e intenta-se perceber o pano de fundo econômico
e as relações de produção e reprodução
entre capital e trabalho. 5
Nas duas últimas seções, respectivamente, O nascimento
da Ágora virtual, trabalham-se a questão da liberdade como aspiração
humana fundamental e da tecnologia como questão própria da civilização
e da sociedade, elabora-se o surgimento de um novo espaço público
eletrônico do agonismo e da colaboração humanas e, em O
pensamento eletrônico, procura-se refletir a respeito do trabalho do pensamento
neste ambiente emergente das novas redes neuro-eletrônicas interativas
de comunicação, na medida em que o suporte, sobre o qual ele se
movimenta e se constitui, encontra-se transformado de modo irreversível.
Por fim, como conclusão, procura-se debater os destinos da geração
WWW diante de seus grandes desafios éticos e políticos contemporâneos
em vistas de uma estética ecosófica, bem como apontar algumas
questões que ficaram em aberto no debate aqui proposto. Além deste
ensaio, dois estudos teóricos são apresentados entre os apêndices
deste trabalho. No primeiro, Atualizando o virtual, visa-se elaborar o conceito
de virtual e, no segundo, Os mitos de Hermes e Prometeu, procura-se, a partir
da elucidação destes importantes mitos gregos antigos, abordar
as grandes mutações antropológicas em curso contemporaneamente.
Apresenta-se também, como ilustração e fundamentação
deste trabalho teórico, sua versão digital na Web, que se encontra
on line no seguinte endereço << http://www.agoravirtual.net/hipertexto/
>>. Cabe observar ainda o contexto a partir do qual este trabalho ganhou
corpo. Ele atravessa quase uma década pelo menos de experimentações
técnicas e sociais, teóricas e conceituais desde as cada vez mais
frágeis fronteiras geopolíticas de um país como o Brasil,
com suas centenárias contradições. Em todo caso, inúmeros
são os contextos de uma narrativa possível, muito está
acontecendo e ainda pode acontecer. Transformações e avanços
tecnológicos e sociais inesperados a qualquer momento poderão
surgir e, em questão de pouco tempo, mudar o panorama sobre o qual, por
ora, se desenham estas outlines digitais.
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Seja como for, diante de tais questões, é preciso, muitas vezes,
reinventar o próprio pensamento, porque o certo é que o “dilúvio”
não vai parar. O perigo de se afogar é real. O perigo de ficar
à deriva é real. Mas não existe navegação
sem perigos.
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