II CORREDOR DE IDÉIAS - II CORREDOR DE LAS IDEAS

INTEGRAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO

 

IDENTIDADE E ALTERIDADE

Profa. Dra. Paula Caleffi

 

Este trabalho tem o objetivo de refletir sobre os temas privilegiados pela historiografia em determinados espaços de tempo.

Estamos nos referindo especificamente sobre a discussão em relação a identidade, a qual vem recebendo uma atenção bastante importante pela parte da academia, traduzida na proliferação de teses e dissertações produzidas nas universidades, bem como, nas organizações de simpósios e mesas redondas em torno do tema.

Reafirmando, o que já é sabido, que a história é também uma ciência do presente, ou que no mínimo reflete as preocupações do presente nos temas que escolhe para analisar, incluímo-nos nesta discussão.

Paul Ricoeur afirma em suas obras, que a solução dos problemas estabelecidos em torno da identidade pessoal deverão tomar em consideração, em seu equacionamento, a dimensão narrativa Ricoeur ( 140) 1. No que estamos plenamente de acordo. Seguindo este raciocínio a presença da alteridade no estabelecimento desta identidade é fundamental, mesmo que esta alteridade seja estabelecida entre o si e o mesmo, ou seja entre a identidade-ipse e a identidade-idem, explicando o sentido do próprio título de uma de suas obras "o si-mesmo como um outro", desvelando assim a identidade como um processo relacional que pode passar do plano da inter-subjetividade para o da intra-subjetividade sem que isto cause alguma alteração do processo, ou que destitua a narrativa como mediação privilegiada na manifestação da identidade pessoal.

Assim afirmando que a identidade é um processo relacional também podemos afirmar que esta narrativa esta adequada ao respectivo interlocutor, mesmo que este seja uma instância interior ao sujeito, pois ainda segundo Ricoeur (p.138), "a compreensão de si é uma interpretação; a interpretação de si, por sua vez encontra na narrativa, entre outros signos e símbolos, uma mediação privilegiada: (...). Neste sentido tratando com um processo relacional, o indivíduo se auto narrará ao interlocutor com os elementos que julgue pertinente àquela situação e aquele interlocutor. Assim, as diversas formas que nossa identidade assume, nunca serão esgotadas em uma única narrativa.

A chamada era da pós-modernidade envolve uma descrença em utopias e paradigmas da sociedade moderna, e o questionamentos de algumas instituições básicas fundadas nesta época, como exemplo o Estado Nação.

Há aproximadamente quinhentos anos o fazer parte de um Estado Nação vem sendo um elemento muito importante no processo de narração das identidades dos indivíduos e dos grupos. O narrar-se enquanto brasileiro, enquanto argentino ou como membro de qualquer outra nacionalidade, compôs durante toda a idade moderna um referencial seguro de identidade reconhecido mundialmente. O próprio mundo moderno tem como elemento fundante fundamental a instituição do Estado Nação. Assim nada mais lógico que se exigisse dos indivíduos vivenciadores desta realidade, uma definição em relação a seu pertencimento a algum Estado Nação. As controvérsias em torno das questões que envolvem, por exemplo, a dupla cidadania nada mais são que um poderoso indicativo da exigência dos indivíduos possuírem uma definição à este respeito.

O momento histórico que vivenciamos agora, trás consigo a necessidade da construção de novos modelos a partir de uma realidade globalizante.

Esta sociedade globalizada que se delineia e ocorre, simplificadamente, em decorrência dos atuais sistemas de comunicação, das redes de informática, da proposta economico-financeira neo-liberal, que não respeita fronteiras, trás como conseqüência lógica o questionamento da instituição do Estado moderno.

Ao favorecer a formação de mercados regionais, os quais possuem como condição fundamental, o apagamento das fronteiras politicamente instituídas pelos Estados, e a substituição das mesmas por acordos comerciais, induz a própria desconstrução da instituição organizativa do mundo moderno. Desta forma a identidade atrelada a idéia de pertencimento a um Estado Nação, perde seu status anterior, pois ao ver desvanecer-se o território político que lhe assegurava um referencial seguro, também perde a noção clara de uma das manifestações da alteridade, ou de uma das manifestações do outro.

As conseqüências deste processo de ruptura são várias, entre elas podemos citar a forte afirmação das identidades étnicas, muitas vezes radicalizadas nos conflitos belicosos. E sob nosso ponto de vista, algo bem menos trágico, a proliferação de trabalhos e reflexões sobre identidade que assolam o mundo acadêmico.

Esta última, reflete-se, no Brasil, por exemplo, no intenso interesse sobre a identidade dos grupos étnicos nativos americanos. Entre 1990 e 1995, foram publicados aproximadamente 151 livros considerados científicos, sobre o tema "índios". Apenas no Rio Grande do Sul, para o mesmo período, foram defendidos aproximadamente 19 trabalhos entre teses e dissertações; enquanto que para toda a década anterior, 1980 a 1989, haviam sido defendidos aproximadamente 8. O crescimento deste interesse, em nosso ponto de vista, esta vinculado muito mais, a um problema de crise de identidade da sociedade ocidental que das próprias culturas nativas.

A valorização e a preocupação com a manutenção e afirmação das identidades étnicas, por parte de segmentos da cultura ocidental, são conseqüência de no mínimo dois fatores: primeiro o amadurecimento das sociedades nativas na organização das suas reivindicações. Segundo, da proposta de construção de uma sociedade globalizada, e da necessidades de buscar-se novos paradigmas substituidores da identidade vinculada ao Estado Nação. Nesta instância faz-se necessário redelinea-se o Outro. A busca da diferença, da alteridade neste momento externa; a redefinição do interlocutor ao qual e pelo qual eu possa narrar-me. Evidente que isto relaciona-se a apenas um aspecto da identidade, mesmo assim nos parece um processo histórico de grande importância e de reflexos amplos.

Entendemos que os povos indígenas atualmente, estão mais organizados em suas reivindicações, e por isto mais fortes no trato com a cultura ocidental. Porém eles sempre estiveram presente na nossa realidade de brasileiros, com suas respectivas diferenças, com suas respectivas histórias, logo uma parte do problema esta na cultura ocidental, que não conseguia entender e coexistir com esta diferença. Foi necessário uma ruptura ou uma chamada crise, para que o interesse pelas sociedades nativas surgisse como uma necessidade de reencontrar o Outro. Temos plena consciência que as sociedades nativas não são o único receptáculo desta busca do Outro, pela sociedade ocidental, mas sem dúvida esta incluído nela.

Em nosso entender este processo pode acarretar alguns problemas: detectamos três riscos aos quais estão expostas as sociedades nativas, com o processo de radicalização da valorização das diferenças étnicas por parte da cultura ocidental;

Primeiro, que se tome as sociedades nativas como paradigma e como local da possível realização de utopias que não encontram mais espaço de projeção após a falência do mundo comunista. Isto acarretaria uma idealização dos indígenas e de suas sociedades, e uma não aceitação destes, como sujeitos históricos.

Segundo que a super valorização da diferença, por membros da cultura ocidental, questione a identidade índio, em favor unicamente das identidades tribais, como já vem acontecendo. Por exemplo Lima, afirma que o dia do índio foi uma data instituída para "celebrar este ser genérico oficial, antítese por excelência da diversidade étnica" (Lima, 1987:150) 2. Temos plena consciência que o termo índio é uma identidade atribuída, originária de uma projeção do imaginário dos primeiros conquistadores. Mas sabemos que a identidade é um processo situacional, e hoje o importante é que o termo índio, envolve todas as etnias que "tem consciência de sua continuidade histórica com sociedades pré-colombianas" (Cunha, 1987:26) 3, frente a uma sociedade nacional que reconheceu seus direitos nas leis, na última constituição, mas que ainda não os reconhece de fato. Logo a desconstrução da identidade índio, que não substitui mas soma-se às identidades tribais, por parte de estudiosos ocidentais, pode ser uma questão de boa consciência acadêmica, porém politicamente é prejudicial as etnias que somam forças, sob a identidade de índio, frente a um Estado e a sociedade ocidental.

E o terceiro risco é que ocorra um fracionamento, através da radicalização da defesa do direito à diferença, que impossibilite a proposta de Serrano, da construção da coexistência da "unidade na diversidade" , (Serrano, 1993 p ) 4.

A preocupação exacerbada com a construção e afirmação das diferenças vem, desta forma ocupando todo o espaço, não permitindo que uma discussão sobre a coexistência das diferenças apareça. Assim propomos que os estudos e discursos sobre a importância do respeito às várias identidades e as diferenças, passe também a envolver uma séria discussão sobre os espaços destinados a interconvivência destas distintas identidades; não apenas o reconhecimento dos interlocutores mas as possibilidades de articulação com os mesmos, demonstrando assim que; enquanto cultura ocidental, conseguimos fazer algo mais amplo, que vá mais além do que a mera resolução de uma crise vivenciada por nossa sociedade a partir da falência de suas próprias instituições.

A preocupação exacerbada com a construção e afirmação das diferenças vem, desta forma ocupando todo o espaço, não permitindo que uma discussão sobre a coexistência das diferenças apareça. Assim propomos que os estudos e discursos sobre a importância do respeito às várias identidades e as diferenças, passe também a envolver uma séria discussão sobre os espaços destinados a interconvivência destas distintas identidades; não apenas o reconhecimento dos interlocutores mas as possibilidades de articulação com os mesmos, demonstrando assim que; enquanto cultura ocidental, conseguimos fazer algo mais amplo, que vá mais além do que a mera resolução de uma crise vivenciada por nossa sociedade a partir da falência de suas próprias instituições.

 

1 Ricoer, Paul. O outro como o si-mesmo. Campinas:Papiros, 1994.

2 Lima, Antônio Carlos de Souza. Sobre indigenismo, autoritarismo e nacionalidade: considerações sobre a constituição do discurso e da prática da "Proteção Fraternal" no Brasil. In: Oliveira Filho, João P. Sociedades indígenas e indigenismo no Brasil. Rio de Janeiro; Marco Zero, 1987

3 Cunha, Manuela Carneiro da. Os Direitos dos Índios. São Paulo: Brasiliense, 1987

4 Serrano, Alejandro Caldera. La Unidad em la diversidad. Hacia la cultura del consenso. Managua:Editorial São Rafael, 1993

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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