II CORREDOR DE IDÉIAS - II CORREDOR DE LAS IDEAS

INTEGRAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO

 

 

OS COLÉGIOS DA PROVÍNCIA JESUÍTICA DO PARAGUAI; SUA INFLUÊNCIA NA FORMAÇÃO DA COLÔNIA

Beatriz Vasconcelos Franzen*

 

No Corredor das Idéias deste ano, muito se têm falado em Integração e em Identidade. Entretanto, considero que, para que possamos chegar à nossa Identidade e alcançarmos uma verdadeira Integração, é necessário conhecermos nossas raízes. Países como o Brasil de formação básica portuguesa e os demais países latino-americanos com formação básica espanhola apresentam diferenças significativas, o que não implica que a Integração não seja possível. Ao contrário, creio mesmo que os diferentes, às vezes, se entendem melhor. No que se relaciona com as raízes de nossos povos, nossas sociedades, acredito que a História pode nos auxiliar. É neste sentido, que enquadro o trabalho que apresento como uma colaboração para a melhor compreensão de nosso passado, visando a construção de um futuro mais sólido.

Os colégios eram estabelecimentos criados pelos jesuítas que concentravam as atividades desenvolvidas pelos inacianos na área onde se encontravam instalados. Na carta ânua de 1612, lemos: "Es este colegio de la Sumpcion como cabeça y matriz delas demas casas, reducciones y misiones del Paraguay"1.

Na América Espanhola, o povoamento, a colonização e a urbanização começaram muito antes dos jesuítas ali chegarem (1568, Peru - 1585, em Tucumán, 1587 no Paraguai). A presença dos inacianos veio suprir a falta de escolas, os poucos clérigos e as outras ordens religiosas como os franciscanos, os dominicanos e os mercedários existentes nas colônias espanholas não atendiam satisfatoriamente aos colonos, especialmente, faltavam escolas para as crianças. Assim sendo, no Paraguay, os colégios foram criados face à reivindicação da população das cidades que aspirava por instituições de ensino que pudessem atender à educação de seus filhos. Para isto estavam prontos a fazer as doações necessárias para a implantação do colégio. Nos primeiros tempos houve uma certa resistência dos Gerais quanto ao atendimento destes pedidos, visto que esta atividade fugia, em parte, aos objetivos que os jesuítas buscavam alcançar ao virem para a América: missionação e evangelização do gentio.

Considerando-se os seus objetivos, os colégios eram centros irradiadores de cultura e de conhecimento, de propagação da fé e da doutrina, de preservação e restauração da moral e de missionação junto aos índios infiéis que buscavam converter "moviales a ello el deseo de convertir a tantas tribus que se descubrian em aquellos bosques..."2.

Entretanto, a instalação dos colégios dependia da autorização real. O projeto - com todos os dados relativos aos custos da construção e da manutenção do estabelecimento bem como os recursos disponíveis e as razões para a sua instalação - era examinado minuciosamente pelo Conselho das Índias. Tal exame chegava a levar mais de vinte anos, quando aprovado. Isto implicava em pressões junto à Corte por várias instâncias. Nestas oportunidades, os jesuítas buscavam apoio de várias fontes de poder: governador local, bispo, cabildo, além de pessoas influentes, geralmente os interessados na instalação dos colégios. Procuradores (jesuítas) eram enviados a Madrid para exercer pressão junto ao Rei sempre com a colaboração das autoridades jesuíticas da Espanha e, em algumas ocasiões, com a própria intervenção do Geral. Mesmo assim, o processo levava muitos anos. Desde 1588, pensava-se em instalar em Salta um colégio, mas sua fundação só ocorreu, entre 1651/1653 (a idéia levou 65 anos para concretizar-se).

No colégio concentravam-se todas as atividades dos religiosos, ações de ensino, de assistência religiosa e assistência social. Do colégio saiam os missionários para seu trabalho nas reduções. A fundação do colégio de Tarija, por exemplo, teve por objetivo buscar aproximação com os índios Chiquitos.

O colégio instalado na cidade era um centro irradiador de cultura, ali eram formados os professores e os missionários que iriam exercer sua atividade na província. Descrevendo as atividades no Colégio de Buenos Aires, em 1743, Lozano 3 narra que ali viviam, no momento, doze jesuítas. Como nos demais colégios, os padres dedicavam-se a pregar, a confessar os espanhóis e a evangelizar os índios que viviam em sua área de influência. Além disso, praticavam ações de caridade, atendendo aos enfermos, consolando os moribundos e instruindo os encarcerados.

As crianças eram ensinadas a ler, a escrever, a contar e a temer a Deus. As classes mais elevadas estudavam Gramática (latim). Em muitas ocasiões, as autoridades locais iam em busca do Superior para conselhos de como resolverem situações políticas ou sociais difíceis ou em busca de apoio para medidas tomadas junto à população. Os doentes procuravam na botica os remédios necessários, gratuitos para os pobres. As drogas utilizadas na Europa eram acompanhadas com outras que os jesuítas haviam conhecido no contato com os índios. Do colégio saiam, anualmente, missões que percorriam as áreas circunvizinhas, fazendas, vilas, aldeias e minas de prata, pregando a palavra de Cristo e a necessidade de salvar a alma. Esta era uma atividade muito apreciada pelos Gerais, por atender ao espírito missionário da Companhia. Os jesuítas, nestas ocasiões, tinham a oportunidade de pregar os Exercícios Espirituais de Santo Inácio, os quais alcançavam grande sucesso entre a população. Cidades e vilas, fazendas e aldeias vivenciavam um período de grande fervor religioso por ocasião da visita dos missionários. Confissões numerosas eram feitas bem como batizados e casamentos, as pessoas acorriam às missas e às pregações dos missionários. O fervor religioso e o arrependimento pelos pecados cometidos levavam a penitências extremadas, a flagelação era a mais comum. Homens e até mulheres entregavam-se a estes atos de forma total a ponto de, por vezes, os próprios padres recomendarem moderação. As autoridades locais apoiavam, inteiramente, estas missões - missões populares - visto que elas contribuíam para o restabelecimento da ordem pública. Em várias ocasiões, a autoridade local enviava a polícia para fazer uma varredura na cidade a fim de não permitir que ociosos ou vagabundos deixassem de participar das atividades religiosas desenvolvidas durante o período da missão. Do colégio do Chile, segundo a carta ânua de 1611 4, quando ainda o Chile fazia parte da Província do Paraguai, saíram dois padres para pregar uma missão em Ligua Veinte (povoação distante duas léguas de Santiago) e Quillota. A população espanhola foi toda chamada a participar bem como os índios dos vales. Nos vales percorridos, os padres fizeram cinco paradas de seis dias cada uma e em todas elas se juntava gente pela manhã, antes do trabalho, e à tarde, antes do sol se por, "con mucha pontualidad y cuidado". Ali se rezava e fazia o catecismo pela manhã e pela tarde. Nos domingos, pela tarde, havia procissão e, após, pregavam a doutrina para meninos e meninas. Famílias inteiras saiam de madrugada das estâncias, distantes meia légua, para assistir às atividades religiosas. Confissões foram feitas em grande número (a carta cita 232), algumas de dez ou quinze anos e outras o pecador escondera desde jovem. O padre relator da carta chama atenção para o fato de que estas pessoas que não se confessavam há muito tempo tinham grandes remorsos e manifestavam grande dor por isso, mostrando-se inquietas e angustiadas por calar seus pecados e quando, orientadas pelo padre, conseguiam fazer uma confissão plena, a satisfação era muito grande e a tranqüilidade voltava a essa alma. Durante o período da missão desapareciam os bêbados "no se ha uisto en todo un mes ningun borracho". No dia da festa (domingo), mesmo tendo sido oferecida bebida aos índios "nolas quisieran, ni beuieron delas..."5. As próprias autoridades eram os primeiros a quererem participar. Quando o missionário retirava-se da região deixava , atrás de si, uma população espiritualmente refeita , em paz com Deus e com seus próximos, aceitando os preceitos da ordem social e pública, o que interessava sobremaneira os governantes. Na verdade, as autoridades civis viram nesta atividade missionária uma forma de contenção dos excessos morais da comunidade, os quais colocavam em perigo a segurança e a ordem. Assim é que a atividade missionária dos jesuítas era utilizada pelas autoridades civis na colônia como instrumento político, a fim de garantir a tranquilidade interna. No colégio, também, organizavam-se grandes festas, usando como pretexto algumas datas comemorativas da Igreja: Páscoa, Natal, Ascensão de Cristo, Assunção de Maria, dias dos grandes santos: São José, São João, etc. Para os jesuítas, uma data importante era a da beatificação de Santo Inácio, motivo de grandes festejos em todos os colégios. Essas festas consistiam não só em folguedos populares, procissões e missas, mas, também, em atividades de caráter intelectual, haja visto as celebrações efetuadas no colégio de Córdoba, em l611, quando as festas em homenagem a Santo Inácio culminaram "con un colloquio de su vida, que salio muy agusto de todos..."6. As festas, além de serem uma estratégia utilizada com o fim de maior aproximação com o povo, atendendo ao aspecto lúdico, tinham, também, um objetivo pedagógico, já que em muitas delas era utilizado o teatro, com peças sobre a vida dos santos ou de Cristo. A instalação dos colégios na Província do Paraguai era, em geral, uma conseqüência dos pedidos dos colonos. Estes desejavam estabelecimentos de ensino que pudessem atender à educação das crianças e para tal fim ofereciam doações à Companhia para que esta instalasse suas casas nas cidades, mas também havia concessões por parte das autoridades. O colégio de Salta foi instalado em terras concedidas pelo governador Juan Ramirez de Velasco (governador de Tucuman, em 1588). Assim sendo, os moradores da região teriam atendimento espiritual que, em geral, era escasso e instituições de ensino para seus filhos, e as autoridades civis contariam com o apoio necessário para exercer o controle da população.

A Companhia de Jesus pretendia criar uma sociedade cristã que vivesse dentro dos princípios do cristianismo romano tal como ela os interpretava. Mas, o controle sobre suas atividades, exercido pelo Estado Espanhol, - através de suas autoridades locais -, era rígido.

A coroa espanhola utilizou os jesuítas como instrumentos para a conquista dos indígenas à medida que a conquista militar foi incapaz de dominar os índios, quer porque os recursos militares fossem escassos, quer devido à resistência oferecida pelos selvícolas, era a conquista espiritual. A instalação das reduções no Guairá, por indicação do local e solicitação oficial do Governador Hernandarias 7, atendia a dois objetivos fundamentais: conquistar os índios que reagiam à ação dos encomenderos, colocando em perigo as vilas de Ciudad Real e Vila Rica del Espiritu Santu, e servir para a fixação da fronteira espanhola face à penetração dos paulistas que já começava a acontecer (1609).

A importância da influência dos colégios jesuíticos na Província do Paraguai pode ser apreciada a partir do testemunho do Governador de Tucumán, Juan de Ormaza e Aregui, em 1735:

"Nestas vastissimas regiões mantém a Companhia 10 colégios, uma casa de noviciado e duas residências fundadas nas principais cidades. A utilidade delas ao serviço de Deus e de V.M. não poderei expressar brevemente (...). Nos colégios, em todos eles há escolas, e são as únicas nas cidades em que se ensina aos meninos ler, escrever, contar e a doutrina cristã, impondo-lhes ao mesmo tempo o santo temor de Deus com grande aplicação e desvelo. Em todos os colégios há um sacerdote ocupado em ensinar a gramática, e no de Buenos Aires, por ser aquela cidade a mais populosa desta província, estabeleceram duas cátedras, uma de filosofia e outra de teologia moral. Em Córdoba está a única universidade desta província a cargo dos mesmos padres da Companhia, na qual além da escola de meninos e a classe de gramática, comum aos demais colégios, leem-se as faculdades maiores de filosofia, teologia escolástica e moral, cânones e Sagrada Escritura (...). Não é menos o que ocorre no real colégio, seminário e convictório que manteem nesta cidade, no qual se cria em virtude e letras o mais florido da juventude e nobreza destas províncias. Desde os reinos do Peru e Chile, alguns enviam seus filhos, estimulados pelo bom nome que por toda a parte tem grangeado sua sabia e cristã educação..."8

Concluindo, podemos afirmar que a influência dos colégios na vida da sociedade rioplatense pode ser identificada na colaboração que prestaram ao Estado Espanhol, através:

da conquista dos índios, sem a necessidade do apoio de forças militares que a Espanha não dispunha na área e que não era aceito pelos jesuítas;

da manutenção da ordem interna, contribuindo com sua ação pastoral para o controle moral das populações - as missões populares;

da tentativa de expansão territorial e fixação de fronteiras através das reduções;

da formação de elites, buscando produzir o homem que o Estado Espanhol entendia como necessário nas colônias.

_______________________

* Doutora em História, pela Universidade de Lisboa. Professora titular do Programa de Pós-Graduação em História da UNISINOS.

1 Carta ânua de 1612. In: Documentos para la Historia Argentina, tomo XIX-XX, Iglesia, 1927-1929. P. 148.

2 Astrain, Antonio, S.J. Jesuitas, guaraníes y encomenderos; Historia de la Compañía de Jesus em el Paraguay. Asunción del Paraguay: CEPAG, 1995. p. 341.

3 Lozano, Pedro, S.J. Cartas anuas de la Provincia del Paraguay. Año1735-1743. Transcrição digitada da cópia microfilmada da tradução do Padre Carlos Leonhardt. São Leopoldo, RS: Instituto Anchietano de Pesquisas/UNISINOS, 1994. (Carta inédita)

4 Carta ânua de 1611. In:Documentos para la Historia Argentina, tomo XIX, Iglesia,1927-1929.p.101.

5 Idem, p. 103.

6 Idem, p. 93.

7 Hernão Arias de Saavedra, Governador do Paraguai.

8 Astrain, Antonio, S.J. Op. cit., p. 339-340. (Tradução nossa)

 

 

 

 

 

VOLTA AO SUMÁRIO