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IDENTIDADE,
INTEGRAÇÃO E LIBERTAÇÃO
LATINOAMERICANA
Charles
Klemz*
Estuda-se
muito o pensamento europeu e esquece-se do latinoamericano. Há
uma verdadeira importação de idéias prontas de
acordo com interesses de pessoas, grupos ou classes sociais. Além
da produção de idéias internamente ser deficitária
na América Latina e especialmente no Brasil, busca-se na chamada
"civilização", na cultura dita superior, idéias
modelos. Trata-se de uma América Latina marcada por um consumo
intelectual europeu e ianque, hoje importando o ideal neoliberal, como
outrora fora, por exemplo, a doutrina positivista.
Nesse
sentido, para a construção de uma identidade latinoamericana
é necessário que haja uma integração continental;
é necessário valorizar a História da América
Latina, conhecê-la e aceitá-la. Para tanto, o resgate do
pensamento latinoamericano, construído ao longo da História,
é fundamental, uma vez que revela a identidade latinoamericana
e reflete justamente a situação de dependência e
a vontade de libertação e integração continental.
O
caminho seguido até a conquista da Independência foi árduo,
mas recompensado pela vitória sobre o imperialismo europeu. No
entanto, mesmo com a emancipação territorial, aconteceu
uma rearticulação em termos de um novo nexo colonial,
ou seja, um neocolonialismo. A Revolução Mexicana foi
uma tentativa de acabar com este neocolonialismo, bem como a Revolução
Cubana permanece nesta luta. Afinal, a Independência não
criou uma nova economia - própria -, fundamental para uma nova
política. Latifúndios e escravidão permaneceram
firmes.
Por
isso, ressalta-se a importância de resgatar nossos mártires
pensadores para, com base neles, na raiz do pensamento latinoamericano,
revelar ao mundo a identidade latinoamericana e assim buscar a autonomia;
mártires estes que têm muito em comum, como o seu amor
pelos que sofrem; o repúdio pelos ricos e opressores estrangeiros
(europeus e norteamericanos); fidelidade para com os ideais da liberdade,
independência, justiça e, ainda, a disposição
para entregar a vida pelos seus ideais.
Pensadores
latinoamericanos, como Simón Bolívar, Francisco Bilbao,
José Martí, José Mariátegui, e tantos outros,
cada qual refletindo a partir da realidade em que estava inserido, discutiram
a identidade latinoamericana e sua libertação imperial
e integração continental. Partiam da premissa de que somos
diferentes e temos uma identidade própria. Assim, torna-se fundamental
a independência definitiva ante o sistema colonial, isto é,
a independência territorial, já acontecida no século
passado como resultado dos esforços iniciados por Bartolomeu
de Las Casas, e continuada por Hidalgo, Morelos, e tantos outros; e,
na atualidade, a independência perante a economia neoliberal globalizada.
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- Simón
Bolívar e o sonho da América Livre e integrada
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"Yo
deseo más que outro alguno ver formar en América
la más grande nación del mundo, menos por
su extensión y riquezas que por su libertad y glória."
Simón
Bolívar (1783-1828), em 1815, na Carta de Jamaica, escreveu sobre
a situação de opressão da América pelo domínio
espanhol. Denunciou o horror da religião, do comércio
e do governo provenientes da Espanha: escravidão, morte, opressão,
ameaças; tudo pelo domínio. Na Venezuela, por exemplo,
foi morta, pelo menos, ¼ da população. Esta situação
não podia continuar. Bolívar, em palavras poéticas,
convidava: "llegó el tiempo, en fin, de pagar a los españoles
suplicios com suplicios y de ahogar esa raza de exterminadores en su
sangre o en el mar".
O
lugar ocupado pelos latinoamericanos não é outro se não
o de escravos do trabalho e de simples consumidores. Os direitos da
humanidade, dos países, foram negados. A falta de um governo
liberal, legítimo e justo só poderia levar à revolução,
declarou Bolívar.
Por
outro lado, Bolívar manifestou sua preocupação
caso a América fosse livre. Afinal, tratava-se de um povo dominado
pelos vícios da nação espanhola onde sobressaía-se
a frieza, a ambição, a vingança e a cobiça.
Citando Montesquieu, disse: "Es más difícil sacar un pueblo
de la servidumbre, que subyugar uno libre". Seria o povo americano capaz
de viver de maneira autônoma?
Para
tanto, Bolívar refletiu sobre qual seria o melhor sistema de
governo: monarquia ou república. Em todo caso, entre monarquia
e república, preferiu a segunda como sistema, uma vez que na
monarquia, com apenas um governante, este estaria inclinado a governar
para si próprio, visando a sua riqueza particular e não
a coletiva. O ideal pregado por Bolívar era o de uma nação
única para toda a América Latina, tendo em vista a origem
comum, a língua, a religião e os costumes. No entanto,
este era um ideal utópico uma vez que cada região tem
interesses diferentes, características particulares, climas variados,
impossibilitando tal hipótese.
Independente
qual fosse o sistema, Bolívar salientou a importância de
uma unidade americana, não tanto por suas riquezas e extensão,
mas mais pela sua liberdade e glória.
Em
discurso pronunciado no Congresso Venezuelano, Discurso de Angostura,
Bolívar insistiu na importância de estar consciente da
realidade latinoamericana, por mais negativa que seja. A partir da negatividade,
da opressão do passado, seria possível recriar a identidade
de oprimidos para uma identidade de libertos.
Para
tanto, alertou para a necessidade de eleições, uma vez
que se um mesmo indivíduo permanecesse no Poder poderia haver
comodidade, assim como Bolívar mesmo alertou sobre o sistema
monárquico, tanto por parte do governante como dos governados.
A liberdade republicana necessita de eleições, ou seja,
democracia.
Por
outro lado, a identidade própria deve que ser valorizada. O povo
americano não é habitado por europeus, ou somente índios,
mas por uma mescla de indígenas, africanos (escravos) e espanhóis.
É uma identidade nova, um povo novo.
Bolívar
defendeu também o que podemos chamar de "educação
popular". Não trata-se de um programa com diretrizes e uma metodologia
pronta; Bolívar disse que o povo tinha muito que aprender. Enquanto
governados, não participavam do Poder, do Saber. Mas um povo
que tem uma história e está ciente dela sabe qual é
o caminho da liberdade. Aprender é essencial. Ter o Saber é
uma forma de estar no Poder e de exercê-lo. Escreveu Bolívar:
"un pueblo ignorante es un instrumento ciego de su própria destrucción".
Do contrário, o povo permanecendo ignorante, mesmo obtendo a
liberdade, voltará a perdê-la.
Bolívar
alertou sobre a necessidade de uma Constituição própria.
Leis são necessárias. A Constituição norteamericana,
ou outra qualquer, não poderia servir para um povo tão
diferente, com cultura própria. A força motriz da Constituição
deve ser a igualdade para uma sociedade ser livre e justa. Democracia
é igualdade.
Bolívar
é um tanto utópico em suas idéias, mas pregador
de uma utopia necessária para a democracia. Pregou a necessidade
do amor pela pátria, às leis, aos magistrados, por parte
dos americanos para que uma república seja eficiente. Por outro
lado, o governo deveria ser popular, justo, moral, que acabasse com
a opressão e a anarquia. Um governo que fizesse reinar a inocência,
a humanidade e a paz; que fizesse triunfar no país a igualdade
e a liberdade.
2.
Francisco Bilbao e a unificação americana
"Unificar
el pensamiento, unificar el corazón, unificar la
voluntad de la América."
Francisco
Bilbao (1823-1865) endossou o pensamento de Simón Bolívar.
Termos como aliança, união, associação e
independência são uma constante em seus escritos. Foi um
defensor da valorização da identidade própria,
da libertação e da unificação americana.
Bilbao tentou alcançar a integração regional já
intentada por Bolívar.
Bilbao
não negava a sua admiração pela nação
que emergia do norte. No entanto, menciona que deve-se considerar a
origem das colonizações no norte e no sul: no norte os
ingleses entraram como homens livres, escapando do absolutismo e das
monarquias européias; o objetivo era a liberdade e não
a conquista com a espada, conforme ocorrera no sul. Desta forma, a colonização
na América do Norte foi contrária à do Sul: os
ingleses buscavam o fim da miséria e da escravidão feudal
e teocrática da Europa; hoje, no entanto, cresceram, julgam-se
donos do mundo. Chegaram livres mas logo escravizaram negros e eliminaram
indígenas.
A
questão abordada não diz que temos que imitar outras filosofias
porque estas deram certo em outras realidades; deve ser, isto sim, original,
e tomar o exemplo de como alcançar a filosofia ideal. Bilbao,
apesar de ser radicalmente contra os norteamericanos, incentiva para
que se observasse a luta deste povo, como este alcançava seus
objetivos. Por isso, a filosofia é universal, mas sempre atenta
à originalidade, ou seja, atenta ao contexto em que se está
inserido. Leopoldo Zea, em sua obra A Filosofia Americana como Filosofia,
segue esta linha de pensamento ainda hoje, de uma filosofia própria,
da emancipação mental, isto é, ruptura com a cultura
colonial em que a América Latina havia sido formada. Citando
Franz Fanon, Zea menciona que é necessária a "descolonização
da mente".
Criar
um novo continente; criar um sistema justo, de forma que a América,
numa nova criação, fosse o pedestal desta criação
e luz e esperança para o mundo, defendeu Bilbao. Nesse sentido,
o "novo sistema" proposto por Bilbao poderia servir de exemplo para
outras realidades. Mais uma vez voltamos à obra de Zea quando
este fala do caráter universal da filosofia; esta, mesmo sendo
própria de uma realidade, pode servir de exemplo para outras
realidades, mas não como modelo pronto, como o sistema norteamericano:
"toda a filosofia terá que culminar em soluções
e respostas que possam ser válidas também para outras
realidades". Nesse sentido, um país, um continente, um "crisol
de culturas" como a América Latina, tornar-se-á maduro
quando, ao mesmo tempo em que se inspirar em idéias de fora,
começar a produzir idéias que possam circular pelo mundo,
ou seja, que sejam universais.
A
educação, como em Bolívar, também foi destacada
por Bilbao. Defendeu a necessidade de educar o povo para que este fosse
consciente daquilo que urgia ser realizado, ou seja, a emancipação,
a independência do colonialismo europeu. Uma educação
voltada para a identidade latinoamericana, ainda que a ascendência
fosse, na maioria, de europeus. Enfatizou também que há
negros, índios e mestiços e que era uma nova raça
emergente, e que por isso precisava aprender a viver esta diversidade
numa unidade, possível somente com igualdade.
Sabendo
da nossa inferioridade perante grandes potências como a européia
e a norteamericana, a necessidade da união tornava-se necessária.
Segundo Bilbao: "La unión es deber, la unidad de miras es prosperidad
moral y material, la asociación es una necesidad, aún
más diría, nuestra unión, nuestra asociación
debe ser hoy el verdadero patriotismo de los americanos del sur".
Para
tanto, Bilbao defendeu que o Estado deveria estar separado da Igreja.
Mesmo não desenvolvendo a temática, podemos dizer que
Bilbao estava consciente de que também a Igreja era colonizadora,
que impusera uma religião a diversos povos e nações
sem observar as tradições e a religião própria
de cada povo. O exemplo é a conquista da América Latina,
ou melhor, a imposição do cristianismo. A Igreja, ao invés
de ser instrumento de libertação, foi instrumento de opressão,
de imposição religiosa. Assim sendo, deveria ficar longe
do Estado.
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- José
Martí: a América é Nossa
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"O
vinho é de banana; e se sair ácido, é
o nosso vinho!"
José
Martí (1853-1895) teve participação fundamental
na História cubana. Além de dedicar sua vida às
Guerras de Independência da ilha em 1868-1878 e em 1895-1898,
a Revolução em 1959 teve em Martí apoio ideológico:
"después
de la victória de la revolución popular antiimperialista
en 1959, las obras de Martí brillaron com nuevos
colores. Depurado de todo lo adherido y ajeno a él,
apareció ante el mundo con su verdadera luz: como
un luchador contra los ricachones de Wall Street, contra
el oscurantismo clerical ...".
Martí
destaca-se pela sua concepção de mundo, concepção
esta adquirida em muito nos escritos de Marx:
"Como
se puso del lado de los débiles, merece honor (...).
Marx estudió los modos de asentar al mundo sobre
nuevas bases y despertó a los dormidos, y les enseñó
cómo echar a tierra los puntales rotos (...). No
fue sólo movedor titánico de las cóleras
de los trabajadores europeos, sino veedor profundo en la
razón de las miserias humanas, y en los destinos
de los hombres, y hombre comido del ansia de hacer bien".
Ao
escrever Nuestra América, publicado em janeiro de 1891 no periódico
mexicano El Partido Liberal, Martí utilizou-se de metáforas
para externar seus ideais.
"O
aldeão vaidoso acha que o mundo inteiro é
sua aldeia, ..., o que restar da aldeia na América
deverá acordar. Estes não são tempos
para deitar de touca na cabeça, e sim com armas como
travesseiro. (...) Já não podemos ser o povo
de folhas, que vive no ar, ... as árvores devem formar
fileiras, para que não passe o gigante das sete léguas
(os Estados Unidos)!".
Nesse
sentido, Martí alertou sobre os fracos (povo de folhas), sobre
os que negam a América como sua pátria e que se envergonham
de levar a indumentária indígena. Estes são traidores
da causa latinoamericana. Defendeu também a Revolução
como meio de mudança (as árvores devem formar fileiras,
...), inclusive para que fizéssemos logo a nossa revolução
para libertação do colonialismo uma vez que o vizinho
do norte fortificava-se: com ele, primeiro viria a dominação
sobre Cuba e depois sobre toda a América Latina, alertou. Sua
vivência nos Estados Unidos converteu-o num crítico implacável
da política deste país. Nos Estados Unidos, afirma Martí,
"los tigres son los dueños de la vida".
Martí
também combateu os "orgulhosos", os que pensam ser a Terra sua
serva; àqueles que acham que sua lei pode reger um povo original,
diferente. Reger, governar deve ser próprio de cada país.
"O governo deve nascer do país". Assim como Bolívar e
Bilbao, defendeu uma unidade latinoamericana, mas com uma autonomia
particular a cada país, uma vez que cada qual deveria ter o seu
governo de acordo com a sua situação, de acordo com a
sua natureza, de acordo com a sua cultura e seus habitantes. A batalha
que existe é entre "a falsa erudição e a natureza".
Em
Nuestra América, menciona que são os incultos - preguiçosos
- que governam graças a seu hábito de agredir e de resolver
as dúvidas com a própria mão. Por isso, não
há como um governante sair de uma universidade - culto -, já
que não surgem universidades onde se ensine a arte de governar.
Desta forma, Martí, assim como Bolívar e Bilbao, também
defendeu a educação. No momento em que um homem culto
governar - alguém que estuda os fatores reais do país,
alguém que possa resolver o problema conhecendo seus elementos,
sua origem - a América pode dar certo.
No
entanto, um governante culto saído de uma universidade latinoamericana,
livre da tirania das universidades européias, conhecedor da História
da América; ciente das raízes latinoamericanas para, a
partir delas, governar. Não trata-se de ignorar a História
Européia ou outra qualquer, mas de ser a História da América
Latina a base para o nosso sistema de organização, de
vida.
Martí
defendeu que não pode haver uma acomodação com
as idéias e as formas de governo importadas. Estas já
retardaram o andamento de um governo latinoamericano próprio.
Por isso, Martí pregou a luta incessante da república
contra a colônia. Há solução, destacou: "está
nascendo na América o homem real".
Martí
também não poupou a religião, uma vez que esta
se aliava "com los ricachones". No artigo La excomunión del padre
Mc Glynn, Martí expõe sua crítica:
"Las
religiones son todas iguales: puestas una sobre outra, no
se llevan un codo ni una punta: se necesita ser un ignorante
cabal, como salen tantos de universidades y academias, para
no reconecer la identidad del mundo. Las religiones todas
han nacido de las mismas raíces, han adorado las
mismas imágenes, han prosperado por las mismas virtudes
y se han corrompido por los mismos vicios".
Para
Martí, a Igreja é o apoio do regime capitalista nos Estados
Unidos, já que "apoya a los politicastros venales que, a su vez,
la protegen".
No
entanto, a América Latina deve continuar lutando unida: a unidade
na diversidade, ou, como disse Martí, uma "união tácita
e urgente da alma continental".
.
- José
Mariátegui e o problema econômico
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"El
nuevo planteamiento consiste en buscar el problema indígena
en el problema de la tierra."
José
Mariátegui (1895-1930) nasceu numa época significativa:
morria Martí na América e Engels na Europa. O Peru, seu
país de origem, junto com a Bolívia, foi derrotado na
Guerra do Pacífico contra o Chile, perdendo os territórios
de Tacna e Arica. No Peru, ainda, um ditador substituía a outro.
No contexto mundial, aconteceu a Revolução Mexicana em
1910 e a Grande Revolução Socialista de Outubro. Este
último acontecimento entusiasmou demais Mariátegui que
prontamente o fez colaborar com o periódico El Tiempo, defensor
do socialismo.
O
governo peruano, a fim de se ver livre do subversivo Mariátegui,
ofereceu-lhe uma bolsa de estudos para estudar na Europa Ocidental.
Com o desejo de conhecer a Rússia, Mariátegui aceitou.
Ao invés de separá-lo do solo latinoamericano, com o qual
contavam seus adversários, aproximou-se da compreensão
marxista-leninista da realidade peruana.
Ao
regressar ao Peru, aderiu à Aliança Popular Revolucionária
Americana (APRA), que mais tarde abandonaria e criaria o Partido Socialista
Operário-Camponês. A partir de 1924, Mariátegui
participa das forças do movimento libertador revolucionário,
incrementando de vez as idéias marxistas-leninistas. Na revista
Amauta (que significa na língua quéchua "pessoa sábia"),
dirigida por Mariátegui, foram publicados vários escritos
consagrados sobre a construção do socialismo na União
Soviética, sobre o movimento operário internacional e
de libertação nacional, assim como traduções
de obras da literatura mundial, incluídas, por exemplo, as de
Maximo Gorki. Escrevendo sobre a produção literária
soviética e refletindo sobre a necessidade de formar a cultura
nacional peruana, concluiu que o desenvolvimento peruano estava complicado
por causa da herança colonial e do atraso sócio-econômico.
Mariátegui
defendeu uma revolução socialista; a valorização
indígena pela via do socialismo. O pensamento revolucionário
e o reformista não podem ser de ordem liberal sem ser socialista,
destaca Mariátegui. Não é possível ser nacionalista
e revolucionário sem ser socialista. Por outro lado, nunca existiu
uma burguesia progressista, com sentido nacional, que se professasse
liberal e democrática e que inspirasse sua política nos
postulados de sua doutrina.
Mariátegui
também publicou escritos sobre o problema indígena. A
respeito disto, defendeu que o problema indígena é econômico-social.
Tem suas raízes no regime da propriedade da terra. Resolver o
problema indígena através de qualquer outra forma é
em vão. Os gamonales, latifundiários - que detêm
a hegemonia da grande propriedade -, detêm todos os Poderes: executivo,
judiciário e legislativo. As leis, o governo são favoráveis
aos gamonales e, consequentemente, são contra os indígenas,
denuncia Mariátegui. A questão não é filosófica
ou cultural, mas econômica e política. Tanto a Conquista
colonial como a Independência e a República são
feitos políticos.
Mariátegui
defendeu a distribuição das terras do Estado e da Igreja.
A República, que deveria auxiliar o problema indígena,
absorveu a propriedade indígena em prol do latifundismo. Para
sustentar e preservar o indígena, a terra é indispensável;
dela o índio, com sua atividade agrária, sustenta-se econômica,
cultural e socialmente. Era necessário, e ainda é, dissolver
o sistema latifundiário.
O
problema não é étnico, moral, religioso, educacional.
A miscigenação, como propôs Sarmiento, ou seja,
a ocidentalização da América Latina, é "uma
ingenuidade antisociológica". A raça indígena não
pode ser considerada inferior; muito pelo contrário, basta estudar
a sua História e cultura.
Assim,
a ação religiosa e a ação humanitária
nada podem fazer para mudar o sofrimento indígena. Educar os
indígenas nem passava pela cabeça dos gamonales: era preciso
mantê-los na ignorância para manter o domínio. Por
outro lado, nem os educadores poderiam pensar em abordar a realidade
econômica-social porque estão presos ao sistema que escraviza
economica e socialmente.
Mariátegui
é objetivo em suas afirmações: "El nuevo planteamiento
consiste en buscar el problema indígena en el problema de la
tierra". Ou seja, a devolução da terra e deixar que os
índios se organizem e vivam de acordo com seus princípios
em sua terra.
A
Conquista, a Independência e a República tiveram os indígenas
como personagens centrais. Cada um destes acontecimentos iniciou sempre
uma nova forma de dominar. Hoje é o Neoliberalismo. O número
de indígenas reduziu brutalmente. A continuar, desaparecerá.
Assim, Mariátegui, à sua época, pode-se dizer,
enxergou a evolução destes movimentos e alertou:
"Cada
dia se impone, con más evidencia, la convicción
de que este problema no puede encontrar su solución
en una fórmula humanitária. No puede ser la
consecuencia de un movimiento filantrópico. (...)
La solución del problema del índio tiene que
ser una solución social. Sus realizadores deben ser
los próprios índios".
Em
seus trabalhos em geral, Mariátegui chegou à conclusão
de que o movimento libertador, tanto no Peru como na América
Latina em geral, só poderia chegar à vitória definitiva
se o proletariado desempenhasse o papel de dirigente e participasse
ativamente. Seu nome está indissoluvelmente ligado ao processo
sindical. Quando foi convocado o II Congresso da Federação,
Mariátegui destacou o seu objetivo: "lograr la unidad proletária
sobre princípios clasistas". Colocou também "los cimientos
de un centro sindical único del país".
Criticou
o racismo, o fascismo e o sionismo. De acordo com Grigulévich,
"toda crítica obedece a preocuopaciones de filósofo, de
político ou de moralista.
Quando
da sua morte, o número trinta da revista Amauta dedicou o editorial
ao seu fundador:
"marxista
convicto y confeso, no fue sólo un proselitista y un
militante, sino un acérrimo propagandista, un calificado
defensor de la ciencia y el pensamiento marxista".
*
* *
Foi
no contexto de dependência que configurou-se uma filosofia latinoamericana,
uma identidade latinoamericana, de integração continental
e, consequentemente, de libertação. Raúl Fornet-Betancourt,
filósofo cubano, destaca que há uma necessidade filosófica
existencial que se preocupe com o filosofar de maneira autêntica
na América Latina. Trata-se de uma tomada de consciência
filosófica, uma valorização crítica do modo
como se tem exercitado o quefazer filosófico latinoamericano
e uma maneira de conceber seu exercício no futuro. O fazer filosofia
autêntica indica uma conscientização a respeito
do passado filosófico da América Latina, enquanto passado
determinado por valores, idéias e sistemas de pensamento alheios
à sua realidade e a suas necessidades.
Leopoldo
Zea defende que a filosofia na América Latina surgiu somente
a partir do último período do século XIX, como
resultado da laboriosa tarefa dos chamados "Patriarcas de 1898" da filosofia
latinoamericana. Já Miró Quesada afirma que sempre existiu
filosofia na América Latina, mas como atividade isolada de alguns
indivíduos ou como ensino acadêmico estereotipado, sem
intensidade intelectual. Ela existiu, sobretudo, para fazer frente a
certos problemas políticos como ideologia. Nesse sentido, não
era uma atividade organizada a fim de repensar a fundo as grandes idéias
e os vastos sistemas do pensamento ocidental. No entanto, por não
ser uma atividade organizada não significa que não repensou
grandes idéias e vastos sistemas do pensamento ocidental. Sempre
se pensou e repensou o sistema ocidental já a partir de Las Casas.
José
Gaos menciona que a façanha libertadora que se iniciou no continente
em 1816 teve seu fim em 1898 com a derrocada espanhola nas Antilhas:
era o fim do império espanhol. Faltava somente a Espanha libertar-se
de si mesma, já que escravizava a si própria e à
América. Para isto, menciona Gaos, era preciso "emancipar-se
mentalmente do passado". A velha ordem colonial espanhola deveria ser
superada, tanto na Espanha como na América. O ano de 1898 colocou
em evidência a tomada de consciência de uma história
comum e a possibilidade de enfrentar em comunhão os problemas
dos tempos atuais. No entanto, na verdade, a façanha libertadora
que terminou em 1898 e que era contra o imperialismo espanhol, deu início
a uma nova luta libertadora contra o imperialismo ianque que emergia.
Iniciou-se
um processo de tomada de consciência global no que diz respeito
a problemas comuns a vários países. A unidade latinoamericana
e a reconciliação com a Espanha objetivavam uma frente
de resistência ao monstro nortenho que emergia. Cem anos depois,
sem uma unidade latinoamericana e muito menos uma reconciliação
com a Espanha, o monstro mostra suas garras.
José
Ortega y Gasset, filósofo espanhol, não viu outra coisa
na América Latina do que imaturidade. Para ele, a América
Latina é mera natureza, pré-história; não
tem ainda uma História: está por fazê-la. Já
a América do Norte surgiu como exemplo de futuro que haveria
de ser realizado. A herança espanhola de povo dominado é
um obstáculo que impede a incorporação da América
Latina à modernidade.
Por
outro lado, Salazar Bondy menciona que "as dificuldades e debilidades
de nossa filosofia não são traços negativos da
filosofia tomada separadamente, mas resultado de um problema mais profundo
e fundamental que afeta a nossa cultura em conjunto". Nesse sentido,
o precário estado de nossa filosofia reflete a situação
geral na qual se encontra nossa cultura. Sempre a América Latina
viveu dominada e, assim, dependente cultural, econômica e politicamente,
o que não deixou prosperar uma filosofia autêntica. Por
isso, a filosofia genuína da América Latina é a
da Libertação.
Assim,
sendo uma Filosofia da Libertação, sempre existiu uma
filosofia na América Latina - um pensamento latinoamericano -,
iniciada por Las Casas, que reivindicou a humanidade dos indígenas
e a sua conseqüente libertação. Simón Bolívar,
Francisco Bilbao, José Mariátegui, José Martí,
e tantos outros latinoamericanos, caminharam para uma Filosofia autêntica
e original da Libertação, sintetizada por Enrique Dussel.
A filosofia latinoamericana, como Filosofia da Libertação,
autêntica e original, buscou e continuará a buscar a superação
do subdesenvolvimento e da dominação sofrida.
Por
fim, o fato é que o latinoamericano é diferente, um povo
novo, com características próprias. A Nossa América
é uma realidade que tem História e Cultura próprias.
Conforme definiu Zea, a América Latina é um crisol de
culturas: índios mestiços e europeus. Por isso, por ser
diferente de tudo e todos deve ter forma e governo próprios.
Deve ser apagado da mente o espírito do "ser dominado" e acendido
o espírito do "ser latinoamericano", do "ser diferente", do "ser
um crisol de culturas". É uma identidade cultural complicada
mas, por isso mesmo, original. São "experiências de homens
em extraordinárias e complicadas situações que,
por isso, vêm a ser sua original contribuição à
História, e à cultura do homem", menciona Zea.
.
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