II CORREDOR DE IDÉIAS - II CORREDOR DE LAS IDEAS

INTEGRAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO

 

 

DESAFIOS ÉTICOS PARA A UNIVERSIDADE PÚBLICA BRASILEIRA

Jesus Eurico Miranda Regina

 

A minha intenção nessa mesa-redonda, dentro do tema dos "Desafios Éticos da Globalização" é trazer à consideração de todos, algumas idéias em relação aos desafios éticos que se colocam para a Universidade Pública brasileira.

A Universidade Pública brasileira, que tem historicamente afirmado na sua origem o seu compromisso social, nesses últimos anos vem enfrentando desafios éticos que podem mudar fundamentalmente a sua função e razão de sua existência.

Gostaria de trazer para todos as preocupações que tem suscitado a professores, estudantes e funcionários técnicos-administrativos, bem como a comunidade em geral, as propostas que o governo FHC vem trazendo para a Universidade Pública brasileira, motivadas pelo programa neoliberal que o FMI e o Banco Mundial estão exigindo para os governos da América Latina.

Coloca-se neste momento para a Universidade Pública brasileira, a questão da substituição da ética da responsabilidade social, pela ética do capital, que não vê os gastos na educação superior de um país, como o investimento social necessário para a formação profissional de sua população e para a produção do conhecimento essencial para a solução de seus problemas.

Justifica-se a rápida discussão deste tema, tendo em vista que é um problema fundamental na manutenção e sobrevivência das nossas nações, que vem sentindo o peso da pressão internacional, para que fiquemos em uma situação de dependência e de dominação, quem sabe por outros tantos 500 anos.

Dentro da perspectiva de modernização da máquina pública, o governo FHC apresentou propostas de reforma do Estado. A intenção do governo federal é rever a tamanho do Estado brasileiro, por considerar que muitas atividades nas quais havia a presença do Estado deve ser transferida para a iniciativa privada. Soma-se à isto o deficit público do país, originado, no seu entender pela má administração pública em atividades e empresas estatais. Para direcionar estas mudanças foi criado o Programa Nacional de Desestatização (privatização), com a venda através de leilões em bolsas de valores, de empresas públicas estatais. Neste rol foram vendidas as maiores empresas públicas brasileiras: a Cia. Siderúrgica Nacional, a Cia. de Mineração "Vale do Rio Doce", Telebrás, e outras.

Além do programa de privatização, o governo apresentou projetos de reforma educacional, administrativa e previdenciária.

Não é necessário, agora neste momento, é explicitar cada um desses processos de reforma que foram apresentados ao Congresso Nacional e aprovados através de Emendas Constitucionais ou de Leis Ordinárias, as principais propostas do governo.

Queremos nos deter um pouco na área da educação, em especial na Universidade Pública, e, trazer para a discussão as principais propostas do governo, mostrando a todos as conseqüências da política do neoliberal adotada, a partir de ordenamentos políticos e econômicos de organismos internacionais.

O sistema federal de ensino superior, mantém as Universidades Públicas, as Instituições de Ensino Superior isoladas e os Centros Federais de Tecnologia.

No Brasil, constitucionalmente, o Ensino Público Gratuito é um direito de todos e um dever do Estado.

A Universidade Pública, é mantida pelo poder público, com investimentos na área de formação profissional, capacitação do seu pessoal docente e técnico-administrativo, através de programas de pós-graduação, em órgãos oficiais financiadores de formação de pesquisadores e de fomento à pesquisa.

Esta síntese nos mostra como é organizado o sistema federal de ensino público no Brasil e a forma de sua manutenção pelo poder público.

Na perspectiva da modernização da máquina pública e da diminuição do tamanho do estado, o governo federal traz à discussão da comunidade o financiamento das universidades públicas brasileiras.

Dentre as várias medidas que tem sido adotadas, ressalte-se a última proposta em relação ao preceito constitucional (Art. 207), que consagra a autonomia didática, administrativa, financeira e patrimonial para as universidades públicas brasileiras.

Não conseguindo alterar o preceito acima citado, via emenda constitucional, é dado a conhecer pelo governo as diretrizes de um projeto de lei, que pretende alterar a forma de participação do governo federal no financiamento das universidades públicas.

No documento chamado "Autonomia Universitária – Fundamentos para uma Lei que regule a Autonomia Universitária das Universidades Federais, nos termos do que estabelece a Lei de Diretrizes e Bases da Educação nacional, assim como disponha sobre a possibilidade de ampliação da Autonomia, mediante contrato de desenvolvimento institucional", o MEC dá a conhecer as diretrizes que deverão nortear o financiamento das universidades públicas brasileiras daqui para frente.

Justifica tal iniciativa, a partir da pressuposição que a atual universidade federal carece de eficiência de gestão e de desempenho. Coloca a proposta como um modelo a ser seguido pelas universidades federais.

Na questão orçamentária, salienta que é preciso retomar o debate em torno de algumas diretrizes principais, mas que o orçamento global deverá ser fixado a partir de critérios objetivos de desempenho institucional. Pelo que está dito, as universidades entrariam no Orçamento Geral da União a partir de novos critérios e, não como se faz até agora nos preceitos constitucionais.

Estabelece no binômio desempenho institucional e garantia estatal o critério básico para o desenvolvimento acadêmico pretendido.

Podemos aqui perguntar, o que é que poderá ser definido como "critérios objetivos" e "desempenho institucional" ? Quem determinará os critérios e como será determinado o desempenho institucional em uma universidade? As diferentes áreas que compõe uma universidade têm modelos de desempenho diferenciados?

Não se pode comparar critérios de desempenho da área de ciências humanas com as áreas técnicas. Como critérios diferentes poderão servir de base para a determinação do desempenho da instituição? Qual a instituição que terá o melhor desempenho? Há pontos de vista diferentes, inclusive na questão da avaliação das áreas. Até o momento, usam-se critérios quantitativos para todas as áreas, mas sabe-se que sobre isto não há consenso na comunidade acadêmica e científica.

Ao final irá falar em celebração de contrato de desenvolvimento gerencial que a universidade assinará com a União para alcançar os recursos para a manutenção das suas metas estabelecidas em planos anuais de ação, e com isso, por este instrumento ser avaliado o seu desempenho institucional.

Para servir-se deste instrumento, observa-se o que já existe na CF a partir da EC Nº 19, dando nova redação ao Art. 37, § 8º. "A autonomia gerencial, orçamentária e financeira dos órgãos e entidades da administração direta e indireta poderá ser ampliada mediante contrato, a ser firmado entre seus administradores e o poder público, que tenha por objeto a fixação de metas de desempenho para o órgão ou entidade, cabendo à lei dispor sobre: I- o prazo de duração do contrato; II- os controles e critérios de avaliação de, direitos, obrigações e responsabilidade dos dirigentes; III- remuneração do pessoal".

Entende-se que o contrato permitirá ampliar a autonomia gerencial em 3 pontos importantes: a) Gestão de pessoal; b) Gestão de recursos patrimoniais e financeiros e; c)Elaboração e execução orçamentária.

Ao explicitar cada um destes aspectos, a proposta é de flexibilizar a contratação e demissão de pessoal, propondo novo quadro de pessoal e novas carreiras.

Na questão de recursos patrimoniais e financeiros, aponta para a manutenção de um patamar inicial, garantido pela União. Em entrevista o Ministro da Educação adiantou a possibilidade de se garantir o orçamento dos últimos dois ou três anos, mas com a alternativa de captação de recursos para o orçamento da instituição.

Espera-se que aumente a captação de recursos e diminua o financiamento da União. Neste caso o Sr. Ministro já nos colocou anteriormente em entrevista a seguinte alternativa para captação de recursos: Por quê não cobrar mensalidades?

Às Universidades Federais é proposta a ampliação da sua autonomia prevista em lei, mas o seu financiamento dependerá de critérios objetivos de desempenho institucional à semelhança das empresas privadas que visam lucro. Onde é que fica o compromisso social do governo através da manutenção das universidades? E a relevância social das universidades públicas? Este compromisso poderá ser avaliado por critérios objetivos de desempenho institucional?

Propõe-se a manutenção e a ampliação da Autonomia para as Universidades Federais, mas financiada não através do compromisso social da universidade e do poder público, mas por critérios gerenciais e empresariais capitalistas.

Eis em síntese, alguns itens principais da proposta do governo FHC/MEC que fundamentarão um anteprojeto de lei que regulamentará a autonomia para as universidades federais brasileiras.

Para finalizar, gostaria de traçar alguns pontos, que no meu entender, poderão alinhavar uma ação conjunta, entre os interessados na defesa da Universidade Pública, nos países da América Latina, e especificamente, entre aqueles que se fazem presentes neste encontro.

Estes pontos são colocados para discussão e serão acrescentados outros, a partir das experiências diversas que aqui forem relatadas.

Comunicação e troca de informações entre as entidades representativas e/ou populares sobre as ações governamentais planejadas e/ou praticadas em cada um dos países, para que, com conhecimento mais profundo sejam encetadas ações conjuntas.

Integração urgente das ações políticas entre as diversas entidades representativas das instituições de Ensino Superior, contra as investidas para aniquilar as Universidades Públicas.

Buscar apoio nos movimentos sociais e/ou populares em defesa da Universidade Pública, para que, em conjunto com as entidades representativas, possam pressionar os governos a mudarem suas ações políticas em relação às Universidades Públicas.

Coordenação das ações políticas dos sindicatos ligados à educação.

 

 

 

 

 

 

 

 

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