II CORREDOR DE IDÉIAS - II CORREDOR DE LAS IDEAS

INTEGRAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO

 

 

HISTORICIDADE E INTERCULTURALIDADE: UTOPIA OU REALIDADE

 

Antonio Sidekum

 

O significado de interculturalidade

 

A interculturalidade implica numa nova formulação filosófica e metodológica (1) da historiografia na pesquisa da subjetividade e da formação do ethos cultural(2). O tratado e o discurso sobre a interculturalidade é sempre em primeiro lugar um discurso sobre as culturas. Assim, não se deve esquecer que a cultura realiza-se a nível dos sujeitos históricos concretos e como sujeitos coletivos que dão e seguem dando vida à mesma.

Quando nos voltamos à subjetividade para tratar do tema de cultura, deparamo-nos com o questionamento seguinte: sob quais condições alguém poderá vivenciar-se como culturalmente autêntico ou mesmo idêntico? Esse questionamento poderia ser mais evidenciado, se perguntássemos para onde orientar-se-á uma pessoa, ou mesmo, respectivamente, um grupo que poderia se vivenciar numa hipotética interrupção histórica? Com esse questionamento queremos, antes de tudo, buscar um modelo diferenciado, que nos possibilitaria a descrição dessa situação. Se apenas tratássemos o problema a partir da filosofia analítica, isso não seria suficiente. Teríamos que ampliar a perspectiva, que poderá ser a partir das interrupções e irrupções de culturas e bem como das variadas formas de superposições de culturas. Esta é a principal temática que abrange justamente nossa perspectiva na América Latina (3). É uma perspectiva com dimensões históricas de um passado recente com negações violentas e formação de sínteses dialéticas, dentro da questão da racionalidade mesma, muitas vezes, essas sínteses são forjadas pelo lógos grego, ou melhor pelo lógos do eurocentrismo, e pela busca de uma nova identidade e a afirmação da mesma.

É evidente que poderemos compreender as culturas sempre como uma síntese de elementos do processo de ideação e de manipulação da natureza, como poesis e techné que são inovados, transportados e assimilados num processo histórico, em que algumas variáveis podem ser definitivas para manter a identidade cultural, bem como alguns poderão ser fatais num processo da subsunção de muitos elementos que já tinham sido consolidados numa determinada cultura.

Mas, acima de tudo, a síntese dialética deveria ser superada pelo diálogo intercultural. "Ya dijimos que éste es el lugar del diálogo del diálogo. Lo que hace falta para la convivencia cultural es el diálogo dialogal, cuya condición, entre otras, es el respecto mutuo. Decimos diálogo dialogal y no meramente dialéctico por este último presupone ya el primado de un lógos (muy restringido, por outra parte) que muchas culturas no reconocen" (4). A temática da subjetividade (5) e mesmo, ou da derivação da própria intersubjetividade (6) sempre foi um assunto latente da tradição dos estudos da historiografia (7) e da própria filosofia que moldaram a cultura do Ocidente. Este desiderato da subjetividade encontramos desde o cogito de René Descartes (8), perpassando pela concepção de universalidade dos direitos humanos concebido por Leibniz (9) e alcançará seu apogeu na filosofia do Idealismo alemão, tanto no princípio do imperativo categórico de Immanuel Kant (10) como do subjetivismo idealista de Fichte. Fichte começa dizendo que o princípio do saber, para a filosofia tradicional, é o princípio da identidade : A = A Isto significa: se A é dado, então, por uma intrínseca necessidade do pensamento, ele deve ser idêntico a si mesmo. Mas afirma Fichte, este princípio começa hipoteticamente "se A é dado", sem dar prova de que A é de fato dado. Quer dizer que este princípio não pode ser primário, mas deve basear-se em algo mais primário, a saber, o Eu que o põe a si mesmo como idêntico a si mesmo. A identidade lógica do princípio de identidade não justifica senão baseada na identidade real do Eu consigo mesmo. Que A = A é uma identidade dada, enquanto que Eu = Eu é uma identidade que se põe a si mesma, e pondo-se baseia a identidade lógica.

Mas, a presença, mesmo em estágio latente, da temática da interculturalidade, foi entrementes, sempre uma grande dificuldade para a articulação dos afazeres da filosofia, da historiografia e da antropologia cultural, que se iniciou no final do século passado. Aqui mesmo, convém ressaltar a dificuldade que alguns historiadores, principalmente os de formação positivista, encontram no quefazer da historiografia ou das teorias da história face à filosofia da história.

Em grande parte do desenvolvimento da questão da identidade e historicidade foi possível elevar ao nível da discussão acadêmica a dimensão da interculturalidade ensejou-se com o desenvolvimento da Antropologia, principalmente da Antropologia cultural, iniciada no final do século passado (11), e alcançando um altíssimo nível de seu desenvolvimento no século XX. As principais reformulações hermenêuticas sobre as fontes dessa problemática aconteceram nas últimas décadas, por um lado, isto, foi possível, graças à utilização de uma nova metodologia da pesquisa histórica; aqui poderiam ser destacadas as inúmeras dimensões desafiadoras do uso do método da história oral, e por outro lado, a introdução do conceito de alteridade na filosofia e na literatura que trata da filosofia hermenêutica. Categorias estas, empregadas principalmente para fundamentar as diversas formas de reconhecimento da alteridade absoluta histórica do outro homem. (12) Se o reconhecimento da alteridade do outro homem dependesse em sua raiz do temor de perder o ganho materialista ou em termos de economia, em conservar interessadamente nosso ser, a ética, por exemplo, seria um capítulo da ontologia do materialismo histórico e da ontologia econômica (13). A moral seria no máximo, como um instrumento de conservação do que serviria um ente já definido para, mediante um pacto entre iguais em guerra, poder preservar em seu ser o máximo possível. O sujeito reconheceria o outro como um igual, como alguém mais poderoso ou menos, e dependendo disso faria seus cálculos e estabeleceria a relação que mais lhe conviria: poder, pacto e submissão.

Na interculturalidade, com o uso do método hermenêutico da compreensão do ethos cultural do sujeito histórico e do sujeito e objeto da pesquisa historiográfica, trata-se de encontrar um paradigma da compreensão do mundo no qual se movem os atores da história e da própria Weltanschauung dos mesmos. A dificuldade reside principalmente na chave hermenêutica, pois a própria metodologia da hermenêutica envolve implicações de extrema subjetividade e relatividade (14). Historicidade e InterculturalidadeÉ sempre fundamental nossa preocupação pelo verdadeiro resgate da historicidade dos povos. Esta historicidade implica na consciência que se tem do momento histórico concretamente situado e das possibilidades que o ser humano tem de ser protagonista da história, isto é, ser sujeito, autor como criador de sua história. E que esta dimensão lhe seja respeitada no reconhecimento de si mesmo e de sua identidade cultural. O que é, em outras palavras o reconhecimento de sua autonomia e de sua liberdade originária e total (15). A historicidade implica, por um lado, as múltiplas nuances de constructos intelectuais e de respectivas teorias de uma determinada cultura a partir de um ethos indelével, e, por outro lado, a experiência da consciência da condição humana em suas contingências existenciais concretamente situadas. . A construção de uma sociedade dá-se sempre a partir dos elementos idealmente criados e dos elementos externos que são internalizados, pela cosmovisão do indivíduo a partir de suas experiências psicológicas, sociais, da sua capacidade intelectual e de seu imaginário.

A filosofia ocidental sempre autodenominou-se como sendo a única filosofia válida, sendo a filosofia por excelência e considerava os outros modos de pensamento como supersticiosos, míticos e pré-lógicos. E com este caráter a filosofia européia foi divulgada e imposta nos países que estavam sendo conquistados. E a expansão do pensamento filosófico europeu fez-se sob a sombra da dominação política e econômica, que se legitimavam dialeticamente. Foi sempre o poder da arte bélica que realizou a conquista e não o poder argumentativo, nem a antigüidade da tradição.

Assim, torna-se necessário pensar o tema de integração e da identidade a partir de situações históricas concretas, em relação ao tempo histórico e ao espaço físico constituído.

Do ponto de vista da perspectiva da realidade histórica, a interculturalidade é sempre problemática. Pois, ele implica principalmente uma reflexão de uma experiência vivida.

História , Utopia e Realidade

 

A História da realidade da América Latina, pressupõe o conhecimento de muitos aspectos controvertidos do método da historiografia. A começar temos muito pouco conhecimento da realidade histórica dos povos da AbyaYala antes do fato da invasão sistemática dos europeus a partir do séc. XV e da colonização subsequente , até os dias atuais, onde por um lado existe uma suposição da história sobre povos a partir do imaginário europeu, principalmente descrita em cartas do período do encontro das culturas, da Conquista, Evangelização e Colonização, quando os povos são julgados a partir de parâmetros europeus em vigor no sistema jurídico e filosófico. e por outro lado, temos a história dos povos oprimidos e verdadeiros agentes da história que não tem seu devido reconhecimento. Foi mais com o desenvolvimento da antropologia cultural e da etnologia que alguns dados despertaram mais atenção tais como a quantidade estatística dos povos indígenas que viveram nas terras conquistadas, por exemplo a cidade do México, certamente foi a maior cidade do mundo por ocasião da invasão européia. Mesmo com toda essa grandeza de civilização serão submetidos e conquistados pelos europeus em variadas formas. Temos uma história oficial desses feitos da Conquista, como uma história que fala pelas vozes do silêncio das noites escuras, frias e circundadas pela Anaconda. E temos uma história real dos povos da América Latina, que se realiza por caminhos criativos.

O conceito de História sempre anda por terrenos áridos e vacilantes entre a mentira e verdade, entre a verdade dos fatos e de sua manipulação, entre conceito de atraso cultural como pelo conceito de progresso da história mesma. Se podemos falar dos dias atuais como, como dias uma era da incerteza, muito mais nos farão lembrar os fatos da realidade do passado de nossa história latino-americana. Não puramente como o conceito apocalíptico e do fim da história, mas, pela realidade que transcende os conceitos que temos sobre os grandes movimentos da história latino-americana(16). A história da América Latina traz em seu bojo uma longa tradição da Utopia, dos sonhos da Terra Prometida, da terra do Paraíso Perdido, nesta direção teríamos uma numerosa lista de literatura. Quero, no entanto, destacar Afonso Reyes: "La América antes de ser descubierta fue soñada."(17)

 

 

Notas

 

 

1. Neste sentido já tem-se uma certa tradição em alguns Institutos da Europa que iniciam a discussão sobre a interculturalidade a partir da filosofia. Vide autores como: WIMMER, Franz. Vorlesungen zu Theorie und Methode der Philosophie im Vergleich der Kulturen. Bremen : Studiengang Philosophie 1997, 182p. E FORNET-BETANCOURT, Raul. Kulturen der Philosophie. Aachen : Augustinus Verlag. 1996 209 p.

2. Estas são algumas teses apresentadas por Raúl Fornet-Betancourt : "Trata-se do desafio hermenêutico que representa o diálogo intercultural. Desafio, da perspectiva filosófica, condensa-se na necessidade de repropor os pressupostos da nossa própria teoria do entender." Fornet-Betancourt, Raúl, Questões de método para uma filosofia intercultural a partir da Ibero-América. . São Leopoldo : Unisinos, 1994 p. 17

3. Raimon PANIKKAR Filosofía y cultura: una relación problemática. In Raul FORNET-BETANCOURT, Kulturen der Philosophie. Aachen : Augustinus Verlag, 1996. P.41

4. Raimon PANIKKAR Filosofía y cultura: una relación problemática. In Raul FORNET-BETANCOURT, Kulturen der Philosophie. Aachen : Augustinus Verlag, 1996. P.41

5. O que seria uma das características fundamentais da modernidade, na autodeterminação na participação com outras pessoas e sociedades em realização da sociabilidade.

6. Ver SIDEKUM, Antonio . A Intersubjetividade em Martin Buber. Porto Alegre : EST. 1979

7. Ver Herodoto. Los nueves libros de la História. Mexico : editorial Porrúa, 1997 Livro I. E Edmundo O'Gorman, na Introdução da versão espanhola, escreve: " La noción de "culpa"que emplea Herodoto al relatar, como inicio de su obra, la série de raptos cometidos por griegos y asiáticos se traduce en la idea de " causa" y ésta, a su vez, en la de una norma de justicia eterna e inmanente (la Diké de Solón) que, entendida y venerada com un sentimiento profundamente religioso, lo gobierna todo de acuerdo com las inexorables sentencias del tiempo. P.XX E neste sentido que Edmundo O'Gorman conclue que: "No sin razón , pues, concibe Herodoto su obra como ocupando un lugar separado de las de sus antecesores los logógrafos, puesto que debemos reconocerlo como el descubridor del cosmos moral, y en ese sentido reafirmarle el título de "Padre de la Historia" com que lo há honrado una tradición secular".

8. Esta perspectiva é amplamente desenvolvida por Edmund HUSSERL na Quinta meditação cartesiana. (Meditaciones Cartesianas, Mexico : Fondo de Cultura econômica. 2. ed. 1986 "Pero, ? qué sucede entonces con otros ego, que no son por cierto mera representación y mera cosa representada en mí, meras unidades sintéticas de verificación posible en mí, sino, por su sentido, precisamente otros?" (p.149)

9. Leibniz enaltece principalmente o aspecto da razão como "a faculdade que percebe esta conexão das verdades, ou a faculdade de raciocinar, é também denominada razão, sendo este o sentido que aqui empregais". ( Novos Ensaios, cap. XVII, Col. Os Pensadores, vol.. XIX S. Paulo :Abril Cultural 1974, p.344

10. "Handle nur nach derjenigen Maxime, durch die du zugleich wollen kannst, dass sie ein allgemeines Gesetz werde" Grundleg. Zur Met. Der Sitten, p. 421

11. Observar a obra de Franz Boas. Cuestiones fundamentales de antropología cultural. Buenos Aires : Solar/Hachette, 1964.

12. Sobre o estudos de documentação histórica é extraordinária a obra de Tzvetan Todorov A Conquista da América; a questão do outro. S. Paulo :Liv. Martins Fontes editora, 1991.

13. Ver Jean Paul Sartre. Crítica de la razón dialéctica. Buenos Aires : Losada

14. Ver o trabalho de Paul Ricoeur. O Si-mesmo como um outro. Campinas, SP : Papirus, 1991.

15. Paulo Suess. Wieder-Erkennen und Protagonismus. Notizen zum geschichtlichen Projekt des Anderen. In Raúl Fornet-Betancourt. Mystik der Erde; Elemente einer indianischen Theologie. Freiburg,Basel, Wien : Herder, 1997, p 216- 230

16. Antonio-Enrique PÉREZ LUNO. La Polémica sobre el Nuevo Mundo. Madrid :Editorial Trotta, 1992 e Manuel REYES MATE et alii. Filosofía iberoamericana en la época del Encuentro. Madrid : editorial Trotta 1992.

17. Ver o excelente trabalho de Horacio Cerutti Guldberg. Presagio y tópica del descubrimiento. México : UNAM, 1991 16 Cfr. Alfonso Reyes, "Presagio de América", em : Última Tule? Obras completas, FCE, México, 1960, t. XI

 

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