II CORREDOR DE IDÉIAS - II CORREDOR DE LAS IDEAS

INTEGRAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO

 

 

 

ÉTICA E GLOBALIZAÇÃO SOLIDÁRIA

Prof. Dr. Sirio Lopez Velasco

 

"Esperar que um produto da criação política como o que aqui expomos se realize algum dia, por remoto que for,constitui um prazeroso sonho; mas o pensamento de uma aproximação a [ele] com o convencimento de que pode existir entanto está regido por leis morais, não só é dever do cidadão, como também do governante."

Kant

[ " O conflito das Faculdades ", 1798]

 

INTRODUÇÃO

Conhecendo a realidade consolidada do sítio "Pé na Terra" ( nos arredores de Novo Hamburgo e não longe de Porto Alegre) é possível perceber que a minha proposta ecomunitarista não é um simples sonho, embora eu mesmo a apresente como um horizonte do qual provavelmente a humanidade possa somente se aproximar assintoticamente sem todavia poder jamais conseguir alcançá-lo em definitivo.

No "Pé na Terra" vinte famílias, já por vários anos, conseguem viver digna e solidariamente de 50 hectares mediante uma produção agro-industrial ecologicamente sustentável (que inclui além dos cultivos a fabricação de pão e queijo) num sistema cooperativo que lhes fornece moradia e alimentação gratuita; todas as decisões importantes do ponto de vista financeiro e organizativo são tomadas em assembléia e a renda familiar de 4 salários mínimos é destinada a equipar a casa e a despesas com educação, saúde e lazer, uma vez que as necessidades básicas estão cobertas pela cooperativa. Ali comemora-se com festa comunitária cada balanço positivo que confirma com monotonia tranqüila e descontraída o sucesso da experiência.

A minha proposta ecomunitarista (que retoma, completando-a nas esferas comunicativa e ecológica a utopia marxiana do Comunismo) decorre da aplicação das três normas da Ética que deduzi argumentativamente da gramática profunda da pergunta que institui o universo ético-moral, a saber "Que devo/devemos fazer?", da qual pressuponho tentamos realizar execuções "felizes" (no sentido de Austin 1962).

A PRIMEIRA NORMA ÉTICA

A felicidade da pergunta "O que devo/ devemos fazer?" está condicionada pela possibilidade que eu/nós tenhamos de escolher pelo menos entre duas alternativas de ação.

Agora, escolher entre duas alternativas de ação supõe liberdade de decisão.

Assim, a liberdade de decisão é uma condição referente à posição do sujeito que realiza o ato de falar "O que devo/ devemos fazer?" e faz parte da gramática do ato.

Posso portanto, dizer:

a) Eu tenho liberdade de decisão é condição de eu posso realizar mais de uma ação ou tipo de ação.

b) Eu posso realizar mais de uma ação ou tipo de ação é condição de eu pergunto "O que devo/ devemos fazer?".

c) [ porque o operador da condição respeita a propriedade da transitividade, ou seja, porque a fórmula sentencial que segue é uma tautologia: ((( p * q ) . ( q * r )) ( p * r ) ] eu tenho liberdade de decisão é condição de eu pergunto " O que devo/ devemos fazer?''.

d) Eu quero fazer a pergunta " O que devo/ devemos fazer?" ( numa realização feliz). E por esse procedimento eu deduzo a primeira norma da ética que reza:

DEVO/ DEVEMOS GARANTIR MINHA/ NOSSA LIBERDADE DE DECISÃO PORQUE EU/ NÓS GARANTO/GARANTIMOS MINHA/ NOSSA LIBERDADE DE DECISÃO É CONDIÇÃO DE EU/ NÓS FAÇO/ FAZEMOS A PERGUNTA " O QUE DEVO/ DEVEMOS FAZER?".

Esta norma é o fundamento ético de toda crítica a qualquer instância da falta de liberdade de decisão, particularmente quando ela resulta de relações alienadas com os outros e comigo próprio.

Esta norma é um princípio ético transcendental ( porque deduzida mediante o operador da "condição" da gramática da pergunta que instaura a Ética), e é também um princípio deontológico- normativo que opera como fundamento da crítica e da tentativa histórica de superação da ausência (e da ilusão) da liberdade de decisão.

O indivíduo que aceita- quer produzir instâncias felizes da pergunta "O que devo/ devemos fazer?" está implicitamente comprometido com o obrigativo estipulado na primeira norma; se esta pessoa descobre mais tarde que sua liberdade de decisão é limitada, então re-descobre na sua dimensão histórica o obrigativo que prescreve a luta para superar tal limitação.

Nota-se, no entanto, que à vista da condição humana ( que é uma condição social) podemos dizer que talvez nunca uma instância da pergunta "O que devo/devemos fazer?" será (plenamente) " feliz", mas ao mesmo tempo devemos constatar que essa pergunta é o "lugar" da instauração- reafirmação da nossa liberdade de decisão e da luta por consegui- la .

A SEGUNDA NORMA DA ÉTICA

Agora a questão é a seguinte: "É ilimitada a liberdade individual de decisão estabelecida pela primeira norma da ética?".

Inspirado em Karl-Otto Apel ( 1973) e em Oswald Ducrot ( 1972), proponho que a gramática do ato de "perguntar" inclui como condição de sua "felicidade" os dois princípios seguintes:

o indivíduo que formula uma pergunta, acredita que seu interlocutor responderá à mesma dizendo o que acredita ser verdadeiro ou correto;

o indivíduo que formula uma pergunta assume com este ato uma atitude de busca coletiva e consensual do verdadeiro ou do correto.

(nota-se que a violação de qualquer destes princípios é possível, mas nesse caso da pergunta em questão, não será "feliz" ).

Também postulo que quando se realiza à nível ético a pergunta "O que devo / devemos fazer?" espera-se como resposta, um Quase- Raciocínio-Causal ( ver Lopez Velasco 1996).

Sobre essa base e considerando que qualquer indivíduo que formula a pergunta "O que devo fazer?" está abrindo por esse ato a porta para a participação enquanto interlocutor que qualquer pessoa que entenda a interrogação, advém a segunda norma da Ética, que reza o seguinte:

DEVO / DEVEMOS BUSCAR CONSENSUALMENTE UMA RESPOSTA PARA CADA INSTÂNCIA DA PERGUNTA "O QUE DEVO / DEVEMOS FAZER?" PORQUE EU / NÓS BUSCO/BUSCAMOS CONSENSUALMENTE UMA RESPOSTA PARA CADA INSTÃNCIA DA PERGUNTA "O QUE DEVO/ DEVEMOS FAZER?" É CONDIÇÃO DE A PERGUNTA "O QUE DEVO/ DEVEMOS FAZER?" É FELIZ.

Esta norma traça os limites da liberdade individual de decisão estabelecida pela primeira norma.

Penso que as pessoas que defendem o dissenso contra o consenso estão confundidas.

Em primeiro lugar, chamo a atenção para o fato de que redigir um artigo ou um livro para defender a importância do dissenso é uma prova irrefutável da importância do consenso, porque mediante aquele escrito o que se pretende é fazer consenso sobre a importância do dissenso.

A oposição simples de "dissenso contra consenso" parece ser uma "contradição performativa" (para ser mais fiel a Austin a chamaria de "contradição ilocucionária") na medida em que o conteúdo locucionário do ato lingüístico se contrapõe a força ilocucionária veiculada pelo mesmo ( como quando alguém ordena "Não me obedeças!", porque o próprio da ordem é pressupor e comandar a obediência).

Creio que consenso e dissenso estão em uma relação dialética, onde um se transforma no outro. Se busco o consenso é porque estou no dissenso. Mas, especialmente no caso das normas éticas, o consenso é sempre provisório e pode transformar-se em dissenso a cada instante, bastando para isso que venha a ser falseado argumentativamente o enunciado que dá sustentação ao obrigativo que as integra.

Disso também se desprende que não há um problema real na suposta problemática que diferencia entre consensos fáticos e consensos legítimos. Todo consenso é sempre provisório. As normas da ética são históricas e a História está sempre aberta.

Mas a segunda norma confirma a primeira no sentido de que devemos lutar por uma ordem social, na qual todas as pessoas sejam o mais livres que for possível em suas decisões individuais consensualmente estabelecidas (e criadas e recriadas a cada instante mediante discussão argumentativa).

3. A TERCEIRA NORMA DA ÉTICA

Quais são as condições da existência da pergunta "O que devo/ devemos fazer?".

Em primeiro lugar, deve existir o ato lingüístico da pergunta.

Mas para a existência de tal ato se faz necessário a existência da linguagem humana; ou seja, a existência do ser humano.

Agora, o que caracteriza um ser como "humano" (se excluirmos a dimensão da sua linguagem)? Posso responder: O trabalho.

O trabalho é a interação entre a parte da Natureza que é o ser humano e o restante da Natureza, através da qual o primeiro está em situação histórica permanente de auto-produção. O trabalho pressupõe a Natureza em seus três componentes: o sujeito (o ser humano), o objeto e o instrumento, ambos naturais de forma direta ou indireta.

Mas a respeito de que Natureza estamos falando? A resposta é: de uma Natureza saudável para o trabalho, que é uma condição para a sobrevivência do ser humano.

Agora posso propor o seguinte argumento:

Premissa 1: a Natureza é saudável desde o ponto de vista produtivo é condição de eu sou um

ser humano.

Premissa 2: eu sou um ser humano é condição de eu faço a pergunta "O que devo/ devemos

fazer?"

Conclusão: A Natureza é saudável desde o ponto de vista produtivo é condição de eu faço a

pergunta: "O que devo/ devemos fazer?"

E a esse raciocínio posso associar a fórmula: p * q ; q * r

------------------

p * r

( sendo "*" o símbolo do operador de "condicional", tal como o proponho; Lopez Velasco 1996, Cap. I) que é uma fórmula logicamente válida, porque como sabemos a fórmula sentencial que a representa é uma tautologia.

Assim encontramos a terceira norma da Ética:

DEVO/ DEVEMOS PRESERVAR UMA NATUREZA SAUDÁVEL DESDE O PONTO DE VISTA PRODUTIVO PORQUE EU / NÓS PRESERVO / PRESERVAMOS UMA NATUREZA SAUDÁVEL DESDE O PONTO DE VISTA PRODUTIVO É CONDIÇÃO DE EU / NÓS FAÇO/ FAZEMOS A PERGUNTA "O QUE DEVO / DEVEMOS FAZER?"

Quero de imediato advertir que talvez essa norma não seja a última palavra da ética em matéria ecológica e de educação ambiental, dado o caráter utilitarista da visão da Natureza ali compreendida.

Mas creio que ela é uma base mínima aos efeitos do dispor de um fundamento argumentativo para a tarefa principal que significa a preservação-regeneração da Natureza, atividade que faz parte da luta por uma ordem social ecomunitarista.

4. A ÉTICA E O CONCEITO DE "LIBERTAÇÃO"

Sobre a base das três normas da Ética defino a Libertação como um processo histórico de construção da liberdade consensual de decisão acerca de nossas vidas, através da discussão e da luta contra as instâncias de dominação intersubjetiva e auto-repressão alienada; processo do qual faz parte o estabelecimento de relações produtivas e estéticas de caráter preservador-regenerador entre os seres humanos e o restante da Natureza.

5. ECOMUNITARISMO

Chamo "Ecomunitarismo" a ordem social utópica pós-capitalista (talvez nunca alcançável, mas indispensável horizonte histórico guia da ação) capaz de se articular com base nas três normas da Ética e de manter-se pela postura de seres humanos em atitude de libertação.

O ecomunitarismo, nas suas dimensões produtiva-distributiva, comunicativa e ecológica se apresenta com o seguinte perfil (em Lopez Velasco 1996, Cap. VIII ).

5.1 O não-Trabalho no Ecomunitarismo

Se o "Trabalho" executado-padecido no capitalismo é a atividade produtiva alienada , por sua condição assalariada, que, submetida ao império da "ordem", é o tormento diário do qual se foge como da peste tão cedo que surgir a oportunidade, o não-Trabalho ao que apostamos no ecomunitarismo é o contrário de tudo isso.

O não-trabalho é a instância de expressão livre das energias produtivas na qual as pessoas realizam alternadamente suas múltiplas vocações.

Isto significa que a mesma pessoa exerça com alternância, senão diária, pelo menos semanal, mensal ou trimestral, por exemplo, as atividades de físico nuclear, jardineiro, pescador, dançarino, torneiro mecânico e professor, se essas forem suas vocações.

O tempo diário e total de execução dessas tarefas será o mínimo possível segundo o exija a satisfação das necessidades comunitárias, e é de se supor que o mesmo haverá de tender (em especial graças aos processos de automação) a zero.[ Terminado esse lapso de tempo começa o uso absolutamente livre, por decisão individual , de cada dia e da vida toda, para o que se quiser, incluído o ócio].

Como conciliar as vocações diversas com o conjunto de necessidades comunitárias que devem ser satisfeitas num nível já atingido (e que nunca cessa de ser melhorado, senão quantitativamente pelo menos qualitativamente) ?

A resposta é : através do acordo consensual dos produtores livremente associados que contraem e renovam periodicamente seu pacto de convivência.

Uma vez estabelecida a lista de necessidades e aquela de disponibilidades vocacionais, o acordo comunitário de não- trabalho é o mecanismo de compatibilização entre ambas.

Esse acordo tem por base um projeto preparado por uma equipe (de integração rotativa e com substituições sucessivas para que a experiência acumulada seja sempre aproveitada a partir dos membros sucessivamente remanescentes), armada dos apoios computacionais que se julgarem necessários, como proposta a ser aprovada pelo conjunto dos pactantes (ou seja, todos os seres humanos com idade superior a, por exemplo, sete anos), os quais atuam por sua vez como representantes dos seres humanos restantes (da atual e das futuras gerações).

Esse acordo tanto no relativo ao tipo como ao tempo rotativo de atividade tem por base a comunidade local (o distrito) , mas se integra aos macro-acordos que abrangem sucessivamente espaços maiores, até culminar no planeta inteiro (e ainda estender-se a outros lugares onde estejam vivendo de forma permanente ou temporária, seres humanos).

[Esse acordo planetário renovado periodicamente vem substituir a atual divisão mundial do trabalho gerada de forma a-consensual e aleatoriamente através das Bolsas que se alternam para operar as 24 horas do dia].

O que acontece com as ocupações que se revelam necessárias à satisfação de necessidades sociais e às quais não corresponde nenhuma vocação livremente expressada?

Duas são as respostas .

Por um lado, a constatação dessa circunstância serve de ponto de partida para que os pactantes (através dos interessados e capacitados dentre eles) se proponham a resolver essa necessidade com mecanismos que possam prescindir de toda intervenção humana (por exemplo , mediante o uso de máquinas ), inventando-os se for preciso.

Por outro lado, e a curto prazo, fazendo com que a "carga" indesejada recaia de forma rotativa e equilibrada entre todos os pactantes e seus sucessores.

O mesmo procedimento organizativo consensual (com o voto de maiorias como último recurso) haverá de verificar-se também no plano estabelecido entre os participantes na ação de cada um dos centros e subcentros de atividade formadores do tecido trama social do não-Trabalho.

As ciências e suas aplicações não-poluentes são um alicerce do não-Trabalho desenvolvido no ecomunitarismo.

Mas, como se depreende à luz do que já foi dito, o cultivo das ciências não será assunto de uma "comunidade científica" como a existente no capitalismo.

O cultivo das ciências é agora uma entre outras das diversas atividades que uma pessoa pode desenvolver em alternância temporal com vistas a seu livre desenvolvimento multilateral.

Assim se resolve a unilateralização, que é sinônimo de pobreza humana, dos atuais cientistas, ao tempo que encurta-se a distância, por dissolução da atual comunidade estanque no tecido social, entre os praticantes e os não praticantes de atividades caracterizadas como científicas, sendo que estes últimos, à luz de uma instrução generalizada, tendem a desaparecer.

A dinâmica "acordista" aqui descrita supõe a eliminação da "ordem" do universo produtivo (e social em geral) e sua substituição por Quase-Raciocínios-Causais (QRC) que estabelecem as obrigações assumidas e operam num contexto onde todo cargo de coordenação-fiscalização é eletivo e rotativo.

Diante da suposta transgressão do consensualmente estabelecido por parte de algum dos participantes o QRC de "segundo grau" com que o interpela um "parceiro" (seja este detentor de algum cargo de coordenação-fiscalização ou não) ou o conjunto de "parceiros" tem a seguinte forma : " (Deves) procede(r) da forma 'y' porque 'z' foi o acordado".

O interpelado, em função da gramática dos QRC, aceitará o obrigativo que dá início ao QRC de segundo grau se assumir como verdadeiro o enunciado "z".

Se não o considerar verdadeiro então haverá de recorrer-se à instâncias que podem resolver a dúvida, por exemplo ao testemunho de outros participantes e/ou documentos que revelem os termos do acordado previamente.

Desse recurso resultam dois finais possíveis : ou é confirmada a veracidade do enunciado "z" e o transgressor fica sujeito ao obrigativo que este justifica, ou o enunciado "z" resulta falseado e fica derogado o obrigativo em questão, ao tempo que se conclui que a suposta transgressão não teve lugar.

Até aqui tenho tratado da divisão social do não-trabalho.

Agora passo a me ocupar da divisão social do produto do não- trabalho.

O ecomunitarismo ajusta-se ao lema : De cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo sua necessidade.

O produto do não-trabalho corresponde na sua quantidade e qualidade ao estabelecido pelo censo consensual das necessidades sociais.

Essas necessidades (sobre cujo caráter haveremos de voltar ulteriormente) correspondem por sua vez ao conjunto do que precisam os seres humanos atuais e futuros para realizar as vocações que não sejam incompatíveis com vocações alheias e/ou de efeito degradante irreversível sobre a natureza exterior (além de estar, obviamente, ao alcance do desenvolvimento alcançado pelas forças produtivas num momento considerado).

Uma vez este produto obtido comunitariamente, sua distribuição também far-se-á (com os apoios computacionais necessários) comunitariamente.

Isto é, um acordo semelhante ao "pacto de produção" estabelece o "pacto de distribuição", o qual é cronologicamente anterior ao primeiro porquanto o orienta em quantidade e qualidade.

O salário e o dinheiro têm desaparecido da história humana e as necessidades individuais (através da família, na forma desta que venha a subsistir, ou diretamente) são satisfeitas a partir do "fundo econômico comunitário".

É fácil se imaginar as superfícies dos atuais supermercados (melhoradas infinitamente no relativo a sua inserção paisagística e qualidade estética) transformadas em depósitos deste "fundo" onde dirigir-se-ão as pessoas para retirar o que lhes corresponde segundo o pacto de produção-distribuição ou desde onde praticar-se-á a entrega a domicílio desses artigos.[Passo por alto os inevitáveis ajustes ocasionais que a distribuição poderá vir a sofrer, sempre por via consensual, a partir de imprevistos que façam diminuir a produção esperada].

Esse "fundo" inclui, obviamente, também as reservas acumuladas para fazer frente, com base num plano consensualmente estabelecido, a eventuais períodos de emergência (resultantes por exemplo de catástrofes naturais), num mecanismo que significa a apropriação e gestão comunitária dos meios atualmente existentes sob a forma de "stocks reguladores de preços".

O uso dos serviços se ajusta a este mesmo procedimento planejado por via consensual existente no domínio dos bens de consumo.[Parecido a isto, se excluirmos os "detalhes" essenciais que são o caráter excludente, o pagamento de taxas e a gestão a-consensual próprias dessas instituições, é o que já acontece quando os sócios de uma academia de tênis ou pintura necessitam marcar hora para praticar essas atividades].

Por sua vez, os produtos que garantem a permanência desta forma geral de produção-distribuição, como é o caso, por exemplo, das instalações industriais, escolares, recreativas, etc., elaborados segundo o pacto estabelecido, integram-se ao tecido da atividade comunitária em conformidade com o cronograma aprovado para tal.

5.2 Ecomunitarismo e ecologia.

O comportamento ecomunitarista a respeito da natureza está baseado na terceira norma da

Ética que prescreve : "Devo/devemos conservar a natureza saudável do ponto de vista produtivo porque a natureza é saudável do ponto de vista produtivo é condição de Eu faço/Nós fazemos a pergunta ' O que devo/devemos fazer ? ' " .

Isso quer dizer que esse comportamento terá um caráter preservador-regenerador da natureza, resguardando-a de toda degradação da sua potencialidade produtiva.

Em termos concretos isso significa que a produção ecomunitarista se realiza única e exclusivamente com base em matérias primas e energia a mesmo tempo renováveis e não-poluentes, ou pelo menos, causantes de uma poluição reversível.

Essa produção integra, como parte de sua atividade permanente, a reversão de seus efeitos degradantes sobre a natureza e a tentativa de reciclagem de todos seus resíduos.

Essa conduta será tema fundamental da educação problematizadora que nas instâncias formais e informais haverá de caracterizar o panorama cultural-educativo do ecomunitarismo.

Sobre essa base se abre a perspectiva de ultrapassar a visão "utilitarista" presente na terceira norma da Ética no relativo à relação entre os seres humanos e a natureza para, no contexto do desenvolvimento multifacetado dos indivíduos, se estabelecer e incentivar o re-encontro lúdico-estético dos seres humanos com a natureza. Haveria então chegado o momento, depois do longo período das sociedades classistas, de uma reconciliação dos seres humanos com a natureza, mas dentro de uma relação na qual a mediação produtiva entre ambos, diferentemente do que acontece nas sociedades denominadas "primitivas", está dada por uma sofisticada tecnologia, feita possível pela aplicação produtiva das ciências, preservadora-regeneradora do meio ambiente e que satisfaça às múltiplas e diversificadas necessidades postas e resolvidas pelo desenvolvimento universal dos indivíduos. Por essa reconciliação a natureza transforma-se para os seres humanos, ao mesmo tempo, no cenário maravilhoso de suas vidas, numa obra de arte que convida a se praticar arte e na companheira ("parceira") de uma atividade produtiva na qual ela, de objeto de produção que não deixa de ser, passa a ser também quase-sujeito enquanto é objeto do cuidado e do carinho preservador-regenerador daqueles.

Essa virada alicerçada na norma ecológica numa perspectiva que a transborda somente é possível no contexto do não-trabalho característico do ecomunitarismo no qual a natureza tem sido desprivatizada e se constitui em objeto-"partner" comunitário.

5.3 Ecomunitarismo, gênero humano e necessidades humanas.

O desenvolvimento universal dos indivíduos é universal não só porque cada indivíduo se desenvolve multifacetadamente a partir de suas vocações (respeitadas as exigências postas pelas normas éticas) mas também porque esse processo de realiza em e graças à interação consciente existente entre cada indivíduo o restante dos seres humanos através do contato de suas respectivas comunidades de vida.

Assim se completa, na negação de sua atual existência restrita porque não-consciente no capitalismo, a aparição e perpetuação de indivíduos que produzem sua vida em interação com o conjunto dos seres humanos.

Noutras palavras, assim se constitui o gênero humano como entidade real.

No e sobre a base do plano produtivo de cada comunidade existente no ecomunitarismo se estabelece esta interação universal consciente dos indivíduos.

Apoiado nesse plano e transbordando-o, configura-se o conjunto dos intercâmbios individuais universais que não se caracterizam ou não se caracterizam somente como "produtivos" por abranger aspectos vinculados, por exemplo, à criação estética e às relações de amizade .

Ambas dimensões dessa interação são já hoje, do ponto de vista técnico, perfeitamente realizáveis in loco e à distância, tanto pelos meios de transporte intercontinentais (cujos atuais efeitos poluentes deverão ser eliminados), como pelas redes "multimídia" de comunicação.

Resta saber como haveremos de encarar na perspectiva ecomunitarista a dimensão quantitativa e o grau de variabilidade qualitativa daquilo que catalogamos como "necessidades" postas e resolvidas pelo e no desenvolvimento dos indivíduos universais.

Às vezes esta questão tem sido abordada com base numa suposta diferença existente entre "necessidades legítimas" e "necessidades artificiais" (ou seja falsas necessidades) humanas.

É evidente que a realidade posta pela propaganda vigente no capitalismo e os hábitos que ela pretende criar e manter nessa chamada "sociedade de consumo" proporciona um certo conteúdo visível ao que se designa com o nome de "necessidades artificiais". (O próprio Marx fez uso de expressões parecidas ao tratar da dinâmica de produção-distribuição-consumo vigente na sociedade capitalista).

Mas, quando se pretende aprofundar na análise dessa questão a diferença estabelecida se revela problemática porque a "legitimidade" de certas necessidades às vezes se interpreta, em oposição ao "artificial", como sendo "natural" e porque ela supõe um fundamento ético a partir do qual possa se afirmar como sendo tal.

Em relação ao primeiro ponto há de se notar que precisamente o homem é aquela parte da natureza que através da cultura transforma sua natureza; em outras palavras, a espécie humana é a parte da natureza que se encontra, no e através de seu devir histórico, em permanente estado de autoprodução. Daí que falar de uma "necessidade natural" referindo-se aos seres humanos seja cair numa visão imobilista que contradiz o caráter historicamente autopoiético da espécie humana e, portanto, incorrer em manifesta falsidade quando não em um non-sens.

No referente ao segundo ponto, a questão da "necessidade legítima" pode ser balizada por nós a partir das normas éticas transcendentalmente deduzidas anteriormente.

Ora, é de se notar que as mesmas não estabelecem uma versão estática de quais são as "necessidades" que cabem nos seus limites; pelo contrário, se comportam como fronteiras flexíveis em cujo seio pode ser acolhida como "necessidade legítima" toda carência posta pelo desenvolvimento universal dos indivíduos que não transgrida a livre autodeterminação de qualquer outro ( com o qual a única relação admissível com vistas à satisfação de desejos é a do consenso), e que não contrarie a preservação de uma natureza exterior saudável do ponto de vista produtivo.

O entendimento entre os seres humanos e o desenvolvimento da tecnologia são os mecanismos que em cada momento histórico haverão de marcar a definição do que cabe se admitir como "necessidade legítima" a ser atendida pela e na vida ecomunitária.

5.4 O caminho rumo ao Ecomunitarismo : História e Utopia.

O ecomunitarismo é hoje uma "utopia" haja visto que, no capitalismo, " não está em nenhum lugar" ( é, literalmente, "ouk"-"topos").

Saber se algum dia poderá ocupar um lugar com as características genéricas antes descritas é uma questão que somente a ação humana poderá resolver. Mas é bom que se diga de imediato que, ainda que isso seja discutível, o que vale a partir das normas éticas transcendentalmente deduzidas é o caminho histórico que aponta rumo ao ecomunitarismo, que não é outra coisa senão o processo histórico de libertação.

Ora , que perfil geral tem esse caminho ?

Para responder essa pergunta permito-me algumas observações conjeturais baseadas na nossa recente experiência histórica.

Creio que, se a fundamentação ética do processo de libertação que aponta rumo ao ecomunitarismo se apoia na crítica do capitalismo, e em especial na situação alienada dos assalariados nesse regime social, nem por isso a luta de libertação pode definir-se como uma luta de classes onde o papel de vanguarda está predeterminado e corresponde à classe operária.

Há que se fazer notar que a classe operária, entendida como composta pelos trabalhadores industriais com contrato trabalhista por tempo indeterminado, tem diminuído quantitativamente e se transformado qualitativamente mediante incorporações tecnológicas ao processo produtivo em relação ao que era sua situação a inícios do século XX. Além disso as organizações sindicais supostamente representativas desta classe transformada têm visto seu número de aderentes diminuir constantemente ao mesmo tempo em que restringiam cada vez mais suas reivindicações a aspectos inerentes à relação assalariada vigente no capitalismo em busca de melhoras que não afetam essa relação como tal e por isso não saem do quadro do capitalismo; assim, são bandeiras de luta permanentes e (quase) únicas as relativas ao montante dos salários, à garantia do emprego, à extensão da jornada de trabalho e às condições de higiene e segurança do local de trabalho; a elas recentemente tem se acrescentado como único elemento novo, no que se refere às relações humanas dentro da empresa, a questão do assédio sexual. Mas ela não tem sido vinculada, no tratamento que lhe tem dado as organizações sindicais dos assalariados, a uma discussão geral sobre o tipo e a legitimidade das relações humanas produtivas e comunicativas vigentes no capitalismo em geral (como a que proponho no capítulo da Erótica do segundo volume de "Ética de la Liberación", Lopez Velasco 1997), e em particular no espaço-tempo da empresa.

Por sua vez, a maioria das organizações políticas supostamente representativas da classe operária transformada tem seguido o caminho das organizações sindicais, unindo-se de fato quando não também de palavras ao capitalismo reinante ( e reinante com mais força depois que, derrotado na Europa e chamado "socialismo real", o capitalismo é apresentado por seus corifeus como sendo "o fim da História").

Nas organizações políticas supostamente representativas da classe operária que não têm abdicado de seus ímpetos superadores do capitalismo, o que se observa é uma conduta marcada por um vazio de propostas no que concerne o regime desejado, quando não uma simples e simplista nostalgia e adesão do e ao "socialismo real"; regime que, como se não bastasse a falta de perspicácia filosófica dos que assim o batizaram (passando por alto o fato de que de acordo ao velho e bom Hegel "tudo o que é real é digno de perecer"), não resolveu na prática nem a questão da progressiva realização consensual da liberdade de indivíduos em processo de universalização nem a questão da reconciliação com a natureza através de uma conduta ecológica de preservação e regeneração da mesma.

Estas constatações são suficientes para aventurar a opinião de que a marcha histórica rumo ao ecomunitarismo não pode ser pensada como uma luta de conquista e/ou recuperação do "socialismo real" tendo a sua cabeça a "classe operária", e à cabeça desta "suas organizações representativas" sindicais e/ou políticas.

À luz da crítica eticamente fundamentada do capitalismo aqui antes desenvolvida e sobre cujo fundo se desenha como alternativa o ecomunitarismo essa marcha aparece como parte e produto de um processo de "conscientização" (no sentido de Paulo Freire; ver Freire 1968) tendo por protagonistas principais aos assalariados e excluídos do trabalho em geral no capitalismo, mas incorporando também a todo homem que seja capaz de entender e compartilhar o alcance daquela crítica.

Ora, que formas organizativas haverão de dar-se essas multidões ?

Creio que a organização sindical e político-partidária ainda tem o seu lugar na história desde que seu discurso cotidiano aponte sempre o objetivo pós-capitalista perseguido, para além das reformas e conquistas pontuais legitimamente defendidas, a saber, o ecomunitarismo, e desde que seu funcionamento interno esteja marcado pela prática democrática das decisões consensuais (sempre que possível em exercícios de democracia direta) tomadas com base na transparência das informações e, como parte da "conscientização" em curso, os cargos diretivos sejam rotativos, evitando a profissionalização dos dirigentes na sua função de tais.

Mas junto e além de tais organizações piramidais (onde, repito, cada nível da pirâmide que implique em delegação de poder de decisão deve ser ocupado em sistema de rodízio) haverão de ter cada vez mais força aquelas que congregam ao homem em seu contexto extra-produtivo, a começar pelo seu local de residência. O restabelecimento duma vizinhança solidária e atenta à melhoria da qualidade de vida no bairro é uma tarefa de primeira importância no relativo à mudança das relações interhumanas e entre os homens e o meio ambiente.

A educação formal e os meios de comunicação são dois espaços fundamentais que a crítica ecomunitarista do capitalismo não pode abandonar em nenhuma circunstância.

As novas possibilidades tecnológicas em matéria de comunicação fazem possível que se estabeleçam brechas na muralha que os meios de comunicação (em especial a televisão, o grande "aparelho ideológico" do capitalismo atual , como poderia dizer Louis Althusser; ver Althusser 1969) constróem diariamente em volta do capitalismo, desde que se restabeleça o diálogo cotidiano com o colega, o vizinho e ainda o desconhecido. As "sessões sem televisão" no bairro dedicadas à discussão e ao desfrute conjunto da vida, a rádio e a TV comunitária, somadas aos espaços institucionais ou individuais que se possa ocupar nos grandes meios de comunicação de massas , assim como a conexão oportuna via Internet, correio eletrônico, telefone, fax e carta, e o incessante diálogo cara-a-cara são instrumentos da ação ecomunitarista na área da comunicação.

Na educação formal o grande desafio passa pela prática de uma "pedagogia problematizadora" (no sentido de Paulo Freire; ver Freire 1968 e Lopez Velasco 1997 ) através da qual professor e aluno constróem e renovam a partir de suas vivências sua leitura crítica do capitalismo e sua inserção transformadora no processo de libertação. Nesse terreno o espaço chave é o dos centros de formação de professores, pois através da formação problematizadora dos mesmos se faz possível a multiplicação da ação problematizadora a escala ampliada porquanto alcança-se o conjunto dos futuros alunos daqueles (que são milhares ao longo de uma vida de docente).

Esse conjunto de espaços e ações define o perfil da maré ecomunitarista capaz de submergir o capitalismo no passado da história (ou da pré-história humana, como disse Marx).

ECOMUNITARISMO E GLOBALIZAÇÃO SOLIDÁRIA

No terceiro volume de "Ética de la Liberación" (no prelo) discuto a política sócio-ambiental ecomunitarista. Nesse contexto volto a frizar que o Ecomunitarismo tem a dimensão planetária de uma globalização solidária, o que me leva ( aproveitando idéias de Fabio Giovannini) a marcar diferenças com uma tendência forte em várias propostas "verdes", o "biorregionalismo", e a fazer precisões ao mais conhecido dos slogans verdes, aquele que prega "Pensar globalmente, agir localmente".

Seguindo o resumo feito por Fabio Giovannini ( Giovannini 1993, p. 70), podemos dizer que o Biorregionalismo consiste basicamente nos seguintes posicionamentos :

Temos de viver segundo as caraterísticas da região onde habitamos; ou seja, viver usando de modo ecologicamente sustentável os recursos da biorregião na qual se habita.

O uso dos recursos biorregionais deve ser sustentável, minimizado (mediante a redução de insumos e resíduos, cuja reciclagem deve ser generalizada), praticando a proteção conservacionista da natureza e a agricultura orgânica.

O núcleo político da biorregião é a comunidade, sendo ela a que deve gerir a terra mediante a prática de uma democracia participativa na qual o momento de exercer o voto é só um momento e não a totalidade do exercício democrático.

Giovannini alerta que esta concepção pode levar ao isolamento de "comunidades incomunicadas"; por outro lado ela não permite visualizar uma solução para a questão de justiça atinente à diferença possível entre biorregiões pobres e ricas; ela também abre a brecha para que, em nome da biorregionalidade, a ecologia se converta numa modalidade a mais de um "funcionalismo sistêmico luhmanniano" ( que considera "reacionário" pois o enfoque de Niklas Luhmann está "totalmente orientado a conservar poderes e interesses existentes, em primeiro lugar, o poder da empresa capitalista"); por último, o biorregionalismo resulta inquietante por reabrir a porta a uma naturalização das questões sociais humanas, quando se sabe que este ponto de vista, ao pregar que a vida política e social dos homes deveria imitar o mundo natural, "pode legitimar violências, racismos, discriminações, darwinismos sociais e autoritarismos". (Idem).

Da minha parte quero salientar que esta última prevenção de Giovannini assim como as três anteriores, requerem, para ganhar legitimidade argumentativa, uma fundamentação ética, que este autor não nos proporciona. Ora, é essa fundamentação que, precisamente, oferece o paradigma ético que proponho; em especial, todas as objeções de Giovannini ficam cobertas pelas duas primeiras normas por mim deduzidas.

Agora bem, como já o tenho dito em outra oportunidade, a efetivação das três normas éticas permite que, por vez primeira, o "gênero humano" fique constituído como entidade real (deixando de ser meramente uma categoria lógico-lingüístico-biológica). Isto significa que, com base na liberdade de decisão garantida pela primeira norma, mas com as restrições que significam a realização consensual desta liberdade em vivências que se pautem pela preservação-regeneração da natureza (prescritas pelas outras duas normas), a aposta ecomunitarista logra superar as carências isolacionistas e de justiça relacional, assim como os perigos de legitimar opressões em nome de um sistemismo a-histórico, detetados por Giovannini no biorregionalismo.

Como disse antes, o Ecomunitarismo propõe que as comunidades de vida se integrem numa grande rede, partindo do local, para cobrir o planeta inteiro; mas essa articulação passa pelos "serviços" mútuos (que, em forma de reciprocidade solidária gratuita, pode assumir a forma de um "potlach" planetário) prestados entre elas, numa relação de co-administração das coisas que impede que qualquer uma delas se erija como opressora de qualquer outra. Como essa relação resulta de consensos argumentativamente estabelecidos, acontece que qualquer abordagem-organização sistêmica passa pelo crivo da História que os seres humanos constroem na medida em que se auto-produzem, e que, por ser tal, resulta, ainda quando haja "funcionalidade sistêmica", da livre decisão, sempre renovável, de cada indivíduo e cada comunidade.

Como disse alguma vez, o que se propõe o Ecomunitarismo é alguma coisa assim como uma "ONU das comunidades", na qual todos os mecanismos de opressão militar, assimetria comunicativa e exploração econômica existentes na atual ONU, sejam suprimidos na fraternidade planetária. [Isto supõe, entre outras coisas, a construção de pactos consensuais renováveis de alcance planetário, que venham a substituir, organizados como Quase-Raciocínios-Causais (cfr. Lopez Velasco 1996) o atual Direito Positivo, que a nível da ONU se constitui em grande parte como expressão do "direito do mais forte"].

Neste contexto, se é verdade que devemos "Pensar globalmente e agir localmente", não é menos verdade que devemos também "Pensar localmente e agir globalmente", e ainda "Pensar globalmente e agir globalmente".

Isto porque algumas questões locais somente são solúveis quando a ação global for bem sucedida (como acontece com o combate ao aumento do buraco da camada de ozônio, que afetando a extremidade sul do continente americano, somente é superável se a nível mundial forem tomadas providências para a redução das emissões que originam tal buraco).

Por outro lado, a diminuição do "efeito estufa" que a todos atinge e ameaça no planeta, somente será atingível se ações globais conseguem diminuir as emissões causadoras do fenômeno.

BIBLIOGRAFIA:

ALTHUSSER, Louis. (1969). Idéologie et Apareils idéologiques d' Ètat, La Pensée, Paris.

APEL, Karl-Otto (1973). Transformation der Philosophie, Suhrkamp, Frankfurt

AUSTIN, John L. (1962). How to do things with words, Clarendon Press, London. DUCROT, Oswald (1972). Dire et ne pas dire, Hermann, Paris.

FREIRE, Paulo (1968). Pedagogia do Oprimido, Paz e Terra, R. de Janeiro, 1970.

GIOVANNINI, F. (1993) ¿La democracia es buena para el medio ambiente?, in Economia

Política Nº 5, p. 61 - 72, Icaria, Barcelona.

KANT, Immanuel. (1798) O conflito das Faculdades, in I. Kant, "Filosofía de la Historia", Nova,

B. Aires, 1958.

LÓPEZ VELASCO, Sirio (1996). Ética de la Liberación, Vol. I (Oiko-nomia), CEFIL, Campo

Grande.

LÓPEZ VELASCO, Sirio (1997). Ética de la Liberación, Vol. II (Erótica, Pedagogía,

Individuología), CEFIL, Campo Grande.

 

 

Endereço do autor :

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Campus Carreiros

96500-900 Rio Grande (RS)

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