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Pensamento e Poder: as razões do feminino

Cecília Pires

"Os loucos não tem senão um discurso louco. Este discurso em nome da razão é alienado.
As mulheres têm também um discurso. Um discurso alienado não em nome da razão, mas do sexo.
A loucura, ou a não-razão, todos podemos inventá-la. Até mesmo os loucos. O sexo não podemos negá-lo, senão desnaturando-o. Para se chegar a uma solução, é preciso exorcizá-lo de nossos preconceitos de classe, de nossos próprios fantasmas e dos seus mitos. Será preciso suportar, sem medo, a nudez de cada um e de si mesmo".

Maria Inacia d,Avila Neto

 

Questões Introdutórias:

A abordagem que eu pretendo fazer neste breve espaço de discussão implica na compreensão abrangente da racionalidade.

Postulo, para entendimento, que a forma maniqueísta narrada em mitos ou explicada e assumida por preconceitos culturais ou intolerâncias religiosas, sobre a dimensão menor da mulher, deve ser entendida como fazendo parte de uma visão não esclarecida da universalidade da razão.

Nesse sentido, faz-se necessário elencar um conjunto de pressupostos que formataram, em gênero, a presença inteligente da raça humana no planeta. Ou seja: os paradigmas explicativos que tentaram sublinhar expectativas de comportamento humano, inclinam-se para designar elementos especulativos no pensamento masculino e elementos práticos no pensamento feminino, como se fosse possível dissociar dimensões que necessariamente estão imbricadas pelo simples fato de que pensar é pensar a totalidade e a singularidade, portanto o teórico e prático não se excluem, ao contrário se necessitam. A metáfora do preconceito assume a roupagem da divisão entre teoria e prática, situando a primeira no imaginário masculino e a segunda nas inclinações femininas. Essa simbologia revela, ainda hoje, a forma agônica de se estabelecer papéis sociais recortados, como se fosse possível ordenar o fazer humano nos estreitos limites das determinações de gênero, patrocinadas pelas vontades poderosas que assim tentaram decidir sobre a liberdade e a racionalidade humanas.

A superação de preconceitos requer a negação das miopias antropológicas e sócio-políticas, as quais embaçam a mirada de horizontes ampliadores da paisagem civilizatória.

Os mitos nos ajudam a entender melhor essa abertura do espaço da racionalidade, construido, a partir das interpretações diversas que a humanidade quer dar a si mesma.

 

Mito

O mundo era fortemente masculino, até quando foi decidido que seria bom que o homem tivesse uma companheira. E de um pedaço do seu corpo surgiu a mulher. Surge de forma secundária para suprir a solidão do homem. No mito adâmico, a mulher assoprada pela serpente, fala ao homem e o desvia do bom caminho. O homem que esqueceu de usar a razão e se deixou levar pelo apetite sucumbiu. Expulsos homem e mulher do jardim das delícias tiveram que trabalhar e a mulher teve que parir seus filhos com dores. Nascer dói, crescer dói e querer pensar também dói e muito.

Lilith, outro personagem feminino, é oposto ao modelo de Eva, é omitido, por se tratar de uma mulher forte, decidida, que preserva sua autonomia como sujeito de razão e liberdade. Não passou pela experiência da expulsão do paraíso, uma vez que nele não estava. A civilização judaico-cristã não fala desse mito, talvez, porque não compareça na narrativa mítica como uma mulher virtuosa. Gerou a parcela rebelde da humanidade.

O itinerário de Prometeu passa por outra metáfora de rebeldia da razão. Sendo amigo dos homens e adversário dos deuses, o herói rouba o fogo sagrado, movido pelo ódio que tinha a Zeus. Sua condenação é cruel. E uma das ações de Zeus, atingido que foi pela atitude rebelde de Prometeu, é criar a mulher. De sua revanche contra a humanidade cria Pandora, astuta mulher que seduz Epitemeo, irmão de Prometeu. Pandora traz uma caixa dos céus e nela estão reunidos todos os males da humanidade. Apenas no fundo da caixa estava depositada a esperança. Pandora abre a caixa, deixa sair todas as mazelas do mundo e antes que a esperança possa sair, a caixa é fechada. A dor e a morte se espalham no mundo dos homens, por obra de uma mulher.

Logo, a mulher tem um poder: o de fazer mal ao mundo. Só não o fará se ficar silenciosa, acabrunhada, resignada ao papel que lhe é outorgado pelos deuses e pelo gênero masculino da espécie. Suas ações, se tomarmos as narrativas míticas, são sempre impensadas ou pouco racionais. Prejudicam o homem e nele a humanidade.

Pode parecer estranho que agora na virada do século e na chegada do milênio nós tenhamos que ficar nos preocupando com narrativas míticas ou com papéis sociais secundários, no momento em que todos os senhores do mundo se envolvem com a questão do conhecimento e com a estratégia de domínio tecnológico, aliado à parcerias femininas em grande escala. As mulheres nem sempre demonstram solidariedade entre si ao falarem de suas questões ou das questões sociais. Suas falas e seus olhares são muitas vezes dimensionadas pelos argumentos ou perspectivas do masculino da espécie. A mulher pede permissão para falar de ciência, de razão e de poder no mundo que fez masculino os lugares da Ciência, da Razão e do Poder. Os indicadores históricos evidenciam que a mulher esteve dissociada da racionalidade, no que diz respeito ao exercício inteligente da racionalidade, nos meandros das conquistas científicas, avanços políticos e afirmações sociais.

Não estamos querendo reinventar uma guerra dos sexos caricata, até porque isso não faz parte da racionalidade. Estamos, apenas, evidenciando um ponto de preocupação face ao poder, que aparece masculino e à razão, que gramaticalmente é feminina, mas que historicamente, instaura-se pela mão do homem, o masculino-gênero.

A partir das lutas conduzidas pelas mulheres e homens determinados pelo desejo de emancipação, houve avanços significativos e as mulheres puderam ascender ao mesmo patamar de legitimidade social que os homens. Tornaram-se advogadas, filósofas, engenheiras, médicas, mas isto teve um preço, parece que todo tempo devem ser vigiadas no seu desempenho profissional, do contrário podem não ser consideradas competentes. Nas coisas menores do cotidiano essa vigilância até não é muito efetiva. Mas, quando se trata de cargos ou funções de responsabilidade, então as mulheres, algumas, passam a ter uma visão masculina no trato das questões, para poderem ser reconhecidas e buscar a legitimidade do poder.

Essa situação se liga ao fato de que as diferenças são mais sublinhadas do que as identidades. Não estamos negando a singularidade, quando falamos das diferenças. É evidente que as peculiaridades devem ser consideradas, na condição humana. Trata-se, apenas, de mostrarmos que o recorte pela diferença é feito de uma maneira discriminatória, uma forma de excluir ou de cobrar desempenho.Ou seja: há um destaque para o fato da mulher ter êxito em ações públicas como se isto fosse um fato raro. Esta é uma forma secundarizada de pensar no agir feminino, ao longo da história das idéias políticas e sociais, porque é visto de forma tranqüila o êxito da ação masculina.

Poder

Eu penso que essas ocorrências comparativas e, a meu juízo, discricionárias devem-se a estratégias do poder, que envolvem razão e ciência. Há uma dinâmica interna na sociedade, que se revela no poder do conhecimento e no conhecimento do poder.

Parece que em se tratando das ações humanas femininas, a primeira polarização - o poder do conhecimento - é posto a prova todo o tempo, na medida em que historicamente a mulher foi relegada ou se deixou relegar a situações de subalternidade, no que se refere aos procedimentos investigativos, disciplinados e profissionalmente legítimos. Não estou aqui discutindo as inúmeras situações em que o feminino comparece ao mundo do conhecimento com profissionalismo. O que estou querendo debater são as razões pelas quais o feminino ficou aquietado, na esfera da cientificidade. Aparecem motivos religiosos, motivos conjunturais econômico-políticos, para não referir o já conhecido motivo afetivo-familiar a cujo elemento é dada ênfase especial. É conhecido de todos nós o jargão que a mulher tem um mundo, que é o amor e o homem tem um amor, que é o mundo. Assim, já fica um pouco apaziguado no imaginário feminino a tarefa de estar presente nas esferas do conhecimento.

No que diz respeito ao poder do conhecimento, parece haver uma possibilidade instalada de investigação no imaginário masculino como decorrência de sua natureza.

A segunda polarização - o conhecimento do poder - pode ser referida à condição feminina com mais proximidade. Aí, a mulher comparece de forma astuciosa, sedutora, tal como nas narrativas míticas ou exercendo um papel de aparência submissa, mas na realidade fortemente ancorado em valores de dominação. Ocorre, nesse âmbito, uma forte carga ideológica, onde as escolhas valorativas são orientadas pelos procedimentos de descoberta das estratégias do poder. Se é verdade que as razões pelas quais o homem faz ciência são razões de trabalho, é possível entender que a mulher busca o poder por razões de sobrevivência.

A forma como se articularam os discursos de gênero prejudicou o processo de emancipação do humano, enquanto realidade sócio-cultural positivada. A estrutura forte do poder, baseada nas instâncias mediadas pela sociedade civil e pelo Estado, comprometeu ações emancipatórias a serem realizadas pela vida humana, enquanto espécie e não enquanto gênero. Esse equívoco ainda não foi resolvido, nem ética, nem estrategicamente.

Na realidade, a emancipação tem que se fundar no pensamento e na ação imbricados num projeto comum alternativo ao comando da consciência postulada pelos interesses do capital e do mercado. Então, a racionalidade se exerce com soberania. As razões que incensam o homem e se apiedam das mulheres são razões preconceituosas, que não poderiam ser evocadas como razões de ciência ou de racionalidade.

Proposta

Proponho

Encoraja-me o fato de que a Filosofia considera o sujeito na sua racionalidade comunicacional. É lógico que também aí residem limitações e formalismos de gêneros e de espécie. É evidente que não é uma esfera de pessoas boazinhas e bem comportadas. Talvez, por isto mesmo Simone de Beauvoir ficou fascinada pela filosofia na forma como as questões humanas eram tratadas.

Eu penso que hoje essa racionalidade se orienta na lucidez conquistada pela espécie humana, onde o gênero feminino entrou pedindo licença e, onde, agora pode ocupar o seu lugar, o seu espaço, como resultado das ações vividas, intervindo na estratégia dos desejos, quase como estratégia de guerra. Se a cultura foi construída masculina e se o feminino participou dessa construção, podemos entender que o pensamento e o poder de edificar mitos e expressar símbolos é próprio do que entendemos por humanidade. Dessa forma, estamos codificando o mundo conforme nossas compreensões. A espécie humana não se divide entre os que pensam e os que sentem, mas reúne essas características numa síntese entendida como racionalidade.

 

*Cecília Pires, Professora de Filosofia Política e Pesquisadora de Ética na UNISINOS e no UNILASSALLE

Capa: ilustração do Mito de Pandora, retirado de Mitologia de Edith Hamilton, São Paulo: Martins Fontes, 1995, pg.89.

 

II CORREDOR DE IDÉIAS DO CONE SUL

Mesa redonda

Mulheres e Pensamento Latino-Americano

Autora

Prof.ª Dra. Cecília Pires

 

UNISINOS - São Leopoldo RS - Brasil